Mãos quietas: ABA e estereotipias

“Quando eu era criança, eu era autista. E, quando você é autista, não é abuso. É terapia. “

“Comportamento não é comunicação. É algo para ser controlado.” (ironia)

~ Julia Bascom, autista adulta

 

Sentimentos direcionam comportamentos. Um bom terapeuta sabe que não adianta tentar modificar a consequência sem avaliar a causa. Um bom terapeuta.

Qual a obsessão em “limpar as estereotipias” de uma criança autista?

Rafael (nome fictício) acabou de ser diagnosticado com autismo. Ainda não completou dois anos. Em uma das primeiras reuniões que sua mãe teve com a terapeuta comportamental, ela lhe mostrou uma tabela com o número de vezes em que Rafael balançou as mãos, se balançou na cadeira, bateu no peito. E disse que o objetivo é diminuir esses comportamentos. Rafael não faz contato visual, não segue comandos verbais, não olha quando é chamado pelo nome, mas o mais importante para a terapeuta é que ele pareça menos autista.

Sentimentos direcionam comportamentos. Estereotipias podem ser usadas para auto regulação. Alguns autistas chegam a citar que pensam melhor ou produzem melhor durante as estereotipias. É como muitos se organizam.

Lendo blogs de pessoas autistas, achei vários relatos de estereotipias inócuas que, quando retiradas à força, foram substituídas por auto agressão ou TOC.

Se a estereotipia está atrapalhando a criança de fazer algo importante, então, sim, é importante que ela aprenda a hora de interromper, mesmo que momentaneamente. Se a estereotipia pode fazer algum dano (como a recente “voz de monstro” que o Theo inventou, e que pode machucar as cordas vocais), sim, devemos pensar em uma forma de remediar isso. Talvez, dando à criança outra forma para que se estimule ou se regule sem problemas. Se a criança só quer passar o dia na estereotipia, devemos ajudá-la, com amor e paciência, a aumentar seu rol de interesses. Claro!

Mas focar em “limpar estereotipias” como uma forma de normatizar a criança é ignorar totalmente a voz dos autistas. É ignorar as novas descobertas sobre como as emoções agem sobre os comportamentos. É maquiar a realidade. É, em alguns casos, uma violência emocional.

Imagem: creative commons (http://bit.ly/1BScLPG)

Imagem: creative commons (http://bit.ly/1BScLPG)

Sim, o trabalho de Lovaas foi extremamente importante. E fico feliz de ver que evoluiu e retirou, por exemplo, a punição (sim, ela existia!). Theo já aprendeu muita coisa com o ABA. E continua aprendendo. Mas o ABA tem evoluído! E nem todo terapeuta entendeu isso ainda! A evolução inclui sair um pouco do “estímulo-resposta” e compreender melhor as descobertas recentes sobre emoções e pensamentos dos autistas. E, também, sobre as necessidades sensoriais que eles têm. Esses fatores não são tão facilmente observáveis, mas estão ali, refletindo-se nos comportamentos. Basta ter sensibilidade e paciência.

A verdade é que estereotipias são inadequadas socialmente. Elas “entregam” que a criança tem algo de diferente. Sim, porque todos temos estereotipias: eu balanço o pé. Tem gente que enrola o cabelo com o dedo. Outros balançam a caneta entre os dedos. Mas uma criança que pula quando está feliz, balança as mãos na frente do rosto ou se balança é estranha! É esquisita! “Vai sofrer bullying”!

Meu amigo Manuel Vasquez Gil costuma dizer que ninguém pede a um cego para parecer menos cego na escola e, assim, ser mais aceito pelos colegas. Por que então queremos que o autista pareça menos autista?

Eu ainda acredito em trabalhar a diferença na cabeça das pessoas para que nossos filhos sejam aceitos com suas peculiaridades. Eu ainda acredito. Ainda.

Só para encerrar: criança feliz aprende. Criança motivada aprende. Se o seu filho ou filha chora quando vê a/o terapeuta, melhor repensar.

 

Andréa (mãe do Theo, sempre).

 

Mãos Quietas

1. Quando eu era criança, eles seguraram a minha mão numa cola estranha enquanto eu chorava.

2. Eu sou bem maior que eles agora. Ando pelo corredor para uma reunião, e minha mão escapa na direção da parede para sentir sua textura enquanto eu passo.

“Mãos quietas”, eu sussuro.

Minha mão cai ao lado do corpo.

3. Em uma classe de crianças não verbais, a frase mais comum é uma metáfora.

“Mãos quietas!”

Um aluno empurra um pedaço de papel, balança suas mãos, finca os dedos na palma, cutuca um lápis, esfrega suas palmas no cabelo. Silêncio, até:

“Mãos quietas!”

Eu ainda estou pra conhecer um aluno que não aprendeu a instintivamente recuar e colocar as mãos no colo com essa ordem.

4. Quando eu era criança, eu era autista. E, quando você é autista, não é abuso. É terapia.

5. As mãos são, por definição, quietas. Elas não podem falar, assim como metade desses alunos…

(Comportamento é comunicação.)

(Não poder falar não significa não ter nada a dizer)

As coisas, aos poucos, começam a fazer muito mais sentido.

6. Terra pode ler as minhas mãos balançando melhor que o meu rosto. “Você tem um movimento pra cada coisa,” ela diz, e eu queria que todo mundo pudesse olhar para as minhas mãos e ver “eu preciso que você vá mais devagar” ou “isso é a melhor coisa do mundo”ou “posso, por favor, tocar” ou “estou com tanta fome” ou “acho que meu cérebro está se auto digerindo”.

Mas se eles virem as minhas mãos, eu não estou segura.

“Eles vêem as suas mãos,” minha irmã diz, “e você pode muito bem estar girando as mãos quando tudo o que está dizendo é “essa comida é bem gostosa”.

 7. Quando estávamos no ensino médio, uma girada acidental de mão da minha parte deu ao meu outro amigo autista ataques de pânico.

8. Me disseram que eu tenho uma fixação manual. Minhas mãos são um dos poucos lugares do meu corpo que eu normalmente reconheço como meus de verdade, posso sentir, e posso ocasionalmente controlar.  Sou fascinada por elas. Eu poderia estudá-las por horas. Elas são bonitas de uma forma que me fazem entender o real significado da beleza.

Minhas mãos sabem coisas que o resto de mim não sabe. Elas digitam palavras, frases, estórias, mundos que eu não sabia que eu conhecia. Elas se lembram de senhas e sequências que eu nem me lembro de precisar. Elas me contam o que eu penso, o que eu sei, o que eu lembro. Elas nem sempre precisam de um teclado pra isso.

Minhas mão dão um feedback automático, de tocar e sentir simultaneamente. Eu sinto que entendi o mundo inteiro quando eu esfrego as pontas dos meus dedos umas nas outras.

Quando eu chego em um lugar novo, meus dedos tocam as paredes, as mesas, os balcões. Eles roçam o papel e me fazem rir, eles se pressionam entre eles e me lembram de que sou real, eles batem e produzem som para me lembrar de causa e efeito. Meus dedos mapeiam um mundo e o fazem real.

Minhas mãos são mais do que eu sou.

9. Mas eu devo ter mãos quietas.

10. Eu sei. Eu sei.

Alguém que não fala não precisa ser ouvido.

Eu sei.

Comportamento não é comunicação. É algo para ser controlado.

Eu sei.

Balançar suas mãos não significa nada pra você, então não significa nada pra mim.

Eu sei.

Eu posso controlar isso.

Eu sei.

Se eu apenas pudesse me segurar, você não teria que fazer isso.

Eu sei.

Eles ensinam no ABA, no treinamento de professores de crianças com deficiências, que o mais importante, mais básico, mais fundamental é o controle do comportamento. A educação de uma criança não pode começar até que ela esteja “pronta para a mesa”.

Eu sei.

Eu preciso silenciar meu mais confiável meio de compilar, processar e expressar informação, eu preciso me esforçar mais para controlar, matar, reduzir e remover a mim mesma a cada segundo do que você jamais poderia entender, eu preciso ter mãos quietas, porque até que eu me mova 97% na sua direção você não consegue ver que há 3% de espaço para que você se mova até mim.

Eu sei.

Eu preciso ter mãos quietas.

Eu sei. Eu sei.

11. Tem um garoto no supermercado se balançando sobre os calcanhares e chacoalhando as mãos animadamente em frente a uma vitrine. Sua mãe sussurra “mãos quietas!” e olha em volta, constrangida.

Eu olho pra ele, e eu não posso evitar, mas minhas mãos se agitam ao lado do corpo quando ele está olhando.

(Balançar as mãos é a nova forma dos “terroristas” se identificarem.)

12. Deixe-me ser extremamente clara: se você segurar as minhas mãos, se você segurar as mãos de uma pessoa com atraso no desenvolvimento, se você ensinar “mãos quietas”, se você trabalhar para eliminar “sintomas autísticos” e  “comportamentos de auto estimulação”, se você tirar a nossa voz, se você…

se você…

se você…

13.

Aí eu…

Eu…

.

(tradução livre de partes do texto “Quiet Hands” de Julia Bascom, autista adulta que escreve o blog “Just Stimming”. Leia o texto completo em inglês AQUI).

Leia Mais

8 de março pra quê?

Algumas datas são marcadas por mimimi, e o 8 de Março é uma delas. “Mas por que precisamos de um Dia Internacional da Mulher?”. “Dia da mulher é todo dia!”. Mimimimimi. Isso me lembra o mesmo chorume que acontece no Dia da Consciência Negra.

Então, amigues, vamos esclarecer. Todos somos iguais? Na teoria. Infelizmente, na prática, há um abismo separando os direitos de uns dos outros. Então, vamos descrever bem em detalhes porque precisamos de um Dia Internacional da Mulher:

  • No Brasil, no período de 2001 a 2011, estima-se que ocorreram mais de 50 mil feminicídios, o que equivale a, aproximadamente, 5.000 mortes por ano. Acredita-se que grande parte destes óbitos foram decorrentes de violência doméstica e familiar contra a mulher, uma vez que aproximadamente um terço deles tiveram o domicílio como local de ocorrência. (fonte: IPEA)
  • Os parceiros íntimos são os principais assassinos de mulheres. Aproximadamente 40% de todos os homicídios de mulheres no mundo são cometidos por um parceiro íntimo. Em contraste, essa proporção é próxima a 6% entre os homens assassinados. Ou seja, a proporção de mulheres assassinadas por parceiro é 6,6 vezes maior do que a proporção de homens assassinados por parceira. (fonte: IPEA)
  • No ano de 2013, foram registrados 50.320 estupros no país, sendo que a maioria esmagadora das vítimas é mulher. Se considerarmos que só 35% das vítimas reportam o crime – a maioria por medo ou vergonha – , chegamos ao assustador número de 143 MIL estupros. (fonte: 8o anuário brasileiro de segurança pública)
Imagem: http://bit.ly/1BZeHsX

Imagem: Bule Voador (http://bit.ly/1BZeHsX)

  • No Brasil, os homens ganham aproximadamente 30% a mais que as mulheres de mesma idade e nível de instrução. (fonte: BID)
  • Uma mulher (pobre) morre a cada 2 dias devido a abortos inseguros no Brasil. (fonte: OMS)
  • Vamos falar do mundo um pouco? Mais de 130 milhões de mulheres e meninas vivas atualmente sofreram mutilação genital nos 29 países da África e Oriente Médio onde esta prática se concentra. Se a tendência se mantiver, mais de 30 milhões de meninas estarão em risco de serem mutiladas antes dos 15 anos de idade. (fonte: Unicef)
  • Em 17 dos 41 países analisados em uma pesquisa sobre violência contra a mulher, um quarto ou mais das pessoas entrevistadas pensa que é justificável para um homem bater em sua esposa. (fonte: ONU)
  • Segundo a OMS, estudos internacionais mostraram que a violência contra as mulheres é muito mais grave e generalizada do que se suspeitava anteriormente. Após examinar uma série de estudos realizados em 35 países, em 1999 a OMS constatou que entre 10% e 52% das mulheres foram agredidas fisicamente pelo parceiro em algum momento de suas vida, e entre 10% e 30% havia sido também vítima de violência sexual por parte do parceiro íntimo. Entre 10% e 27% das mulheres relataram ter sido abusadas sexualmente, como crianças ou adultas.

Fora todos os números, existem os famosos fatos corriqueiros, né?! Então, vamos simplificar. Precisamos de um Dia Internacional da Mulher porque:

  • Mulheres ainda são separadas em “pra casar” e “fácil”;
  • Mulheres vão à polícia relatar um estupro e são questionadas sobre a roupa que estavam usando. Aliás, se você ler os comentários nas notícias sobre estupro nos principais portais, vai ver que a culpa é sempre da mulher (estava de roupa curta, estava bêbada, estava onde não devia);
  • Um pai que cumpre com a devida obrigação para com os filhos é tratado quase como um santo e mártir;
  • Um homem que trai a esposa “está só sendo homem”. A mulher com que ele se envolveu é a “vagabunda destruidora de lares”;
  • Uma mulher que tem um vídeo íntimo postado na internet é questionada sobre por que se deixou filmar, enquanto ninguém quer nem saber quem foi o bonitão que fez o mal feito;
  • Mulheres ainda são demitidas de empresas porque engravidaram;
  • Mulheres sofrem constrangimento por amamentar em público;

Ficou claro? Então, vamos reforçar: vai ter um Dia Internacional da Mulher, sim! E, se reclamar, vai ter dois!

Brincadeiras à parte, trate o tema com a seriedade que ele merece. Nesse dia, não queremos flores. Queremos respeito e igualdade.

 

Leia Mais

Felicidade e memórias afetivas

Há duas semanas, comecei a tentar algo que me parecia impossível: abolir o adoçante no café, no chá, em tudo o que fosse possível. Já entrei nessa competição com alma de perdedora: tenho plena consciência da formiguinha que sou e de como o sabor docinho me dá conforto.

Em uma das viagens rápidas que fazemos aos fins de semana, paramos em um café. Meu marido, que é meu maior incentivador nesse quesito, colocou no centro da mesa um copo com cappuccino. Só cappuccino. Nada de açúcar ou adoçante. E me desafiou a tentar. Lá fui eu, já de antemão fazendo careta. A primeira coisa que meus lábios tocaram foi a espuminha do leite. Logo em seguida, tudo meio junto e misturado. E, no momento em que senti o gosto do leite com a espuma o café, voltei ao início dos anos 80.

Frutal é o nome da cidadezinha onde meu pai nasceu. Na prática, ele nem nasceu na cidade, mas no sítio onde meus avós moravam. A terra do triângulo mineiro  é vermelha como coloral. Gruda nas roupas e nos sapatos, principalmente das crianças, que sobem em árvores, correm atrás das vacas no pasto, se enfiam no meio do mato, riscam o chão para brincar de amarelinha. E foi ali, entre vacas, morcegos que dormiam no teto do quarto, galinhas, abacaxis e muita comida feita no fogão a lenha que passávamos um bom pedaço das férias da infância.

Nós 4 e nossa infância cheia de terra vermelha e leite de vaca fresco!

Nós 4 e nossa infância cheia de terra vermelha e leite de vaca fresco!

Lembro-me de ser acordada com um aviso de que “o vô estava quase levando as vacas para o pasto”, portanto, “melhor correr pra ainda dar tempo de pegar o leite”. Ah, o leite! Quentinho, saído direto da vaca pro copo! Jamais, naquela época, eu questionaria o quão saudável isso era de fato, mas era uma delícia!

Chegávamos na cozinha, onde minha avó nos dava uma caneca daquelas de alumínio, com um tanto de café açúcar no fundo. E lá íamos nós, calçados em nossos chinelos, para a cerca do curral. Meu avô amarrava o bezerro nas pernas traseiras da vaca e, ali mesmo, tirava jatos de leite direto para dentro das nossas canecas recém preparadas. Subia aquela espuma doce e quente, com um gostinho de café. Nenhum café da manhã em hotel cinco estrelas substituiria aquela situação para a minha pessoa de menos de um metro à época!

Ah, tudo que é bom acaba…eu já sabia. E, para repetir sem ter que voltar à cozinha e reabastecer a caneca de café e açúcar, eu deixava um restinho do que tinha acabado de beber no fundo, devolvia ao meu avô, e lá vinha mais um jato de leite. E esse repeteco tinha gosto de…cappuccino praticamente sem açúcar.

Isso é o que eu chamo de “memória afetiva”. Algum gosto, cheiro ou toque que me lembra de alguma situação que mexeu, de alguma forma, com as minhas emoções. Essa memória afetiva tão gostosa do leite que saía direto da vaca me ajudou a abandonar o adoçante no café com leite.

Algumas memórias afetivas têm gosto de saudade. Se eu fechar bem os olhos, lembro-me perfeitamente do abraço da minha tia Anilda, irmã do meu pai, pessoa tão especial e querida, que faleceu pouco antes do meu casamento. Chegávamos a Frutal, na sua casa de chão vermelho, e éramos recebidos por aquele abraço de urso, tão quente, tão acolhedor. Se eu fechar os olhos, também lembro do sabor do macarrão que a tia Anilda preparava com tanto carinho.

Tenho um arquivo mental com várias gavetas onde guardo minhas memórias afetivas. As que são negativas – como o perfume que usava alguma pessoa que me fez muito mal – deixo nas gavetas mais de baixo, menores, escondidas. Não pretendo acessá-las. Faço o possível para não ter que abri-las.

As gostosas ocupam as gavetas da frente, com destaque, com honra. Pretendo tirá-las do arquivo com frequência, acariciá-las, colocá-las pra tomar sol para que durem bastante.

Enquanto eu acessava a memória afetiva do leite, no Café durante a viagem, olhei para o meu garotinho de olhos grandes e curiosos. Espero, com todas as minhas forças, que todas as experiências às quais temos exposto nosso filho sirvam para encher seus arquivos de muitas, milhares de memórias afetivas gostosas, cheirosas, acolhedoras, inesquecíveis.

Mas, devido à sua sensibilidade diferenciada, com certeza, Theo vai precisar de um arquivo bem maior. É que suas memórias terão muito mais cores, sabores, sons e sensações que as minhas!

 

 

Leia Mais

Dos dias ruins

Anteontem, tivemos um dia de cão com o Theo. Sabe aquele dia em que nada funciona? Foram várias crises, vários episódios de xixi fora do lugar (sendo que ele já não usa fralda desde os 3 anos de idade), e uma agitação totalmente fora do comum. Não conseguimos identificar nenhum gatilho: nada de diferente na rotina, nenhum alimento diferente.

Sorte que meu marido já tinha voltado de viagem. Então, nos revezávamos para tentar colocar o Theo pra dormir em um cenário caótico: super agitado, ele fazia todos os barulhos possíveis, molhava a cama, arremessava a galinha. Quando um sentia que o outro já estava desmoronando, a gente trocava de lugar.

Quando ele finalmente dormiu, estávamos tão cansados que desistimos de jantar, de ver tv, e só queríamos dormir e descansar. O cansaço físico se equiparava ao cansaço mental e psicológico. Senti meu coração em frangalhos nesse dia e chorei como há muito não chorava.

Passou…passou. Acordei 100% no dia seguinte, pronta pra encarar o dia, olhando meu garotinho com ternura, sem aqueles pensamentos negros que povoam a nossa mente nesses dias terríveis.

Já comentei na fan page que acompanho várias séries de TV ao mesmo tempo. E uma das minhas favoritas é “The Walking Dead”. Quem não conhece ou nunca viu, provavelmente acabou de torcer o nariz aí do outro lado da tela.

The Walking Dead. Imagem: http://bit.ly/1LyGYFK

The Walking Dead. Imagem: http://bit.ly/1LyGYFK

Sim, o pano de fundo da série é um apocalipse zumbi. Mas o roteiro é sobre as relações humanas e as mudanças comportamentais que acontecem em pessoas vivendo em situações extremas.

E um dos diálogos de ontem mexeu demais comigo. Tanto que fui atrás do texto e compartilho, agora, com vocês. Todos estão abrigados em um celeiro e o líder da turma, Rick, conta o seguinte caso:

“Quando eu era criança, eu perguntei ao meu avô se ele matou muitos alemães na guerra. Ele não respondeu. Dizia que era conversa de adulto. Então eu perguntei se os alemães tentaram matá-lo, e ele ficou bem quieto. Ele disse que morreu assim que pisou no território inimigo. Todos os dias ele acordava e dizia pra si mesmo: “descanse em paz. Agora, levante-se e vá guerrear”. E, depois de anos fingindo estar morto, ele saiu da guerra vivo. E esse é o truque, eu suponho. Se fizermos o que tem que ser feito, teremos o direito de viver.”

Uau! Sabe quando a mensagem te atinge e você fica anestesiada? Senti como se Rick estivesse falando dos nossos dias terríveis aí. Dias em que nos sentimos mortas: sem perspectivas de futuro, com os sentimentos nublados, com os olhos embaçados. E, nesses dias, por mais que nos sintamos assim, temos que guerrear. Sozinhas, revezando com o marido, mas temos que continuar tentando. E, no final, quando a criança finalmente descansa e dorme, nós também apagamos exaustas, mortas. Mas nos levantamos vivas no dia seguinte. Voltamos a ter esperança, a ver o lado bom, a fazer o dia valer pelo sorriso que recebemos ao acordar nossas crianças pela manhã.

E acordamos vivas pela sensação de que fizemos tudo o que estava ao nosso alcance. Fizemos o que podia e tinha que ser feito como mães do Theo, do Edu, do Caio, do Gui, da Manu. E nos abastecemos de amor nos dias bons justamente para suportar os dias difíceis.

 “Se fizermos o que tem que ser feito, teremos o direito de viver”.

Força, gente! Pra mim, pra vocês, pra todas nós!

<3

 

Leia Mais

Pacotinhos cheios de amor

“Os cães são o nosso elo com o paraíso. Eles não conhecem a maldade, a inveja ou o descontentamento. Sentar-se com um cão ao pé de uma colina numa linda tarde é voltar ao Éden, onde ficar sem fazer nada não era tédio, era paz.” (Milan Kundera)

Um pacotinho cheio de amor

Um pacotinho cheio de amor

O sítio onde Lola nasceu fica a duas horas de carro de Londres, bem no meio de uma zona praticamente rural. Fomos a primeira vez visitá-la para ser entrevistados pela criadora como possíveis compradores. Após a aprovação, combinamos a data para buscá-la de vez.

Duas semanas depois, lá fomos nós. Na volta, acomodei-me no banco de trás com ela e com um rapazinho curioso, mas também receoso com a novidade que se aconchegava a seu lado: uma bolinha de pelo quente que se mexia constantemente, procurando a melhor posição para dormir. Ele evitou tocá-la. Ela ignorou a rejeição. Apaixonou-se por ele desde o primeiro dia. Tentava enfiar-se no vão entre seu cadeirão e o banco para ficar mais junto dele.

A primeira noite de Lola em casa não foi em casa. Às onze da noite, um barulho nos chamou a atenção no andar de cima. Um cano estourou no teto, acima do banheiro, transformando-o em um pântano. A água escorreu sem dó nem piedade e alagou toda a cozinha e a sala no andar de baixo. Sentada na sala molhada, com os pés pra cima do sofá – e com a pequena dormindo ao meu lado – , procurei no Google “pet friendly hotels in London” (hotéis que aceitam animais em Londres). E foi em um deles que passamos nossa primeira noite como uma família composta por quatro “pessoas”.

Theo demorou vários dias para ter coragem de tocar Lola pela primeira vez. Foi quando eu, a mãe aflita, percebi uma alternativa: sugeri que ele a tocasse com o pé. E ele, imediatamente, o fez. Aos poucos, foi perdendo o medo de senti-la, também, com as mãos. Foi curtindo o pelo fofinho e macio. Só não curtiu as mordidas de dentes finíssimos que ela lhe dava com frequência, coisa normal pra um cachorrinho que está na fase de troca. Uma adestradora deu várias dicas e conseguimos, com sucesso, contornar esse problema inicial. As roupas que ela furou? Bem, essas não tiveram conserto mesmo. :)

E já faz um ano que Theo aprendeu a falar “oua”. Ele, o garotinho que só falava “mamã” e “má”. Faz um ano que aprendemos que um cachorro novinho é como um bebê recém chegado da maternidade: você morre de amores, mas também sofre. Você para, às vezes, pra pensar “onde é que eu estava com a cabeça”.

Você acha que não vai dar conta de tudo: da casa, do outro filho, dos xixis no tapete, das mordidas. Você procura por pessoas com a mesma raça na internet e descobre, aliviada, que é normal pensar que não vai dar certo, que tem algo de errado com a energia inesgotável do seu bichinho, e que você comprou o único “Golden Retriever maléfico” do planeta Terra. Assim como com o bebê novinho, todos te dizem “vai passar, isso é uma fase, depois eles se acalmam”.

E todo mundo tem razão. A fase dos dentes passou sem que o Theo criasse rejeição à Lola. Tudo graças às técnicas que eu pesquisei bastante (como encerrar qualquer brincadeira assim que ela mordesse). Se nos comprometermos a educar, o xixi fora de lugar passa mais rápido ainda. E o amor só cresce. O companheirismo floresce.

Lola é uma irmã para o Theo. Como todo irmão, ele briga com ela de vez em quando. É que ela não tem muito desconfiômetro e, quando resolve que quer brincar com ele, não desiste muito fácil. Isso tem forçado o Theo a sair um pouco do casulo e do movimento repetitivo. E tem estimulado nosso garotinho a pensar e bolar estratégias até pra se livrar dela (como eu já o vi fazendo várias vezes, ao jogar longe um brinquedo para que ela vá buscá-lo e saia de perto um pouco).

Lola só trouxe ganhos. Roupas furadas não são nada perto do amor incondicional que ela demonstra por toda a família.

O olhar mais doce do mundo

O olhar mais doce do mundo

Cachorros são seres peludos que transbordam amor. Cachorros são membros da família.

Portanto, se você se empolgou e quer trazer um peludinho pra casa, a primeira coisa que eu te digo é: não se empolgue. Essa decisão é muito séria e muito importante. Pese todos os prós e contras do mundo. Dá trabalho, gasta dinheiro, faz sujeira, tem que educar. Se você não está disposto ou não tem tempo, melhor deixar pra lá. Porque a pior coisa que se pode fazer no mundo é “doar” ou abandonar o cachorro depois dizendo que “não deu certo”. Por favor, POR FAVOR, não compre ou adote um cachorro na empolgação!

Quer mesmo? Tem certeza? Um adestrador pode ser importante, principalmente se você tem uma criança autista. Aprender a lidar com a fase das mordidas é crucial para que seu filho não crie birra ou rejeição com relação ao bichinho.

Não tem condições de contratar um adestrador? Há livros bons, como o Adestramento Inteligente, do Alexandre Rossi, que podem te dar um norte. Na internet também tem muita coisa legal para tirar dúvidas e orientar. Um exemplo é o blog Mãe de Cachorro.

Passou por tudo isso? Aproveite. Ame. Faça carinho, deixe ele se apoiar no seu colo, tire muitas fotos, faça muitos vídeos. Ria e chore com as interações entre ele e seus filhos.

Como diz a frase lá em cima do texto, ficar ao lado de um cachorro olhando a paisagem não é tédio. É paz.

 

P.S: Veja, abaixo, o vídeo com a retrospectiva desse ano!

Leia Mais

Blogagem coletiva: eu stalkeio, tu stalkeias…

“Quem muito abaixa mostra o popô” ~ Anônimo

Internet é um circo. Fato. Veio pra revolucionar a nossa vida, em grande parte, para melhor. Mas todo bônus tem seu ônus. A internet é cheia de gente sem noção e folgada.

Outro dia, comentei na fan page sobre pessoas que roubam imagens com frases que eu fiz, tiram minha assinatura e colocam outra por cima. Ok, isso é chato, mas a gente sobrevive. Bem pior do que isso, foi quando roubaram uma foto do Theo de um post que eu fiz e a usaram em um meme HORROROSO de futebol. Denunciei ao Facebook, várias pessoas fizeram o mesmo, reclamei com os donos da página, mas nada aconteceu. Ela continua lá até hoje.

Imagem: http://bit.ly/1KJAhk1

Imagem: http://bit.ly/1KJAhk1

Isso são exemplos de “infrações leves a moderadas” cometidas por pessoas sem noção ou cara de pau mesmo. Mas existe coisa bem pior que gente sem noção e cara de pau. Existe gente mau caráter, existe quadrilha especializada em roubo de dados pela internet, existe pedófilo, toda aquela corja que a gente quer bem longe. E a gente não se toca de que, uma vez que postamos algo na internet, aquilo pode NUNCA mais sair de lá. Você pode apagar a foto, mas alguém já pode ter salvo. Você pode apagar o post, mas o print foi dado no último segundo antes que você o fizesse.

O objetivo desse post não é deixar ninguém neurótico. É trazer à nossa consciência o fato de que, às vezes, somos ingênuos demais quanto aos perigos da exposição da nossa vida – e dos nossos filhos – no ambiente virtual.

Para exemplificar isso, participei de uma brincadeira puxada pela Milene do Blog da Diiirce. Fizemos um amigo oculto entre blogueiras onde cada uma teria que “stalkear” quem sorteou. No final, a gente entregava um relatório sobre o que conseguiu descobrir da “amiga oculta”.

internet segura

Pra quem não está acostumado ao termo, “stalkear” é procurar informações sobre a pessoa na internet. Jogar o nome no Google pra ver o que aparece, ir no Facebook, no Instagram, e por aí vai.

Devo contar pra vocês: como stalker, eu sou uma ótima jornalista! :D

Não consegui achar grandes coisas da minha colega. As coisas que ela posta publicamente são bem genéricas e nada comprometedoras.

E quem me stalkeou? Bom…o relatório que eu recebi mostrava o que eu já sabia: minha vida pessoal está bem documentada por aqui (e no Facebook, e no Instagram), mas nada comprometedor, com uma exceção: as minhas fotos do Instagram mostravam o local onde foram tiradas. Isso mesmo. Ela sabia o nome da rua onde meus pais moram. Claro que eu corri lá pra corrigir esse “oversharing” do meu Instagram.

E qual a mensagem aqui? Que não vamos ficar neuróticos, mas também não vamos entregar o ouro na mão do bandido, certo?

Então, aqui vão algumas dicas que a gente conseguiu reunir para que você se garanta contra esse tipo de gente:

  1. Restringir as publicações no facebook para amigos. Coloque como público só aquilo realmente genérico!
  2. Postar fotos de eventos ou programas só depois que eles acontecerem. Isso evita que mapeiem onde vc está;
  3. Não dar check in público na escola dos filhos;
  4. Configurar o Facebook para que você tenha que autorizar qualquer marcação do seu nome em fotos ou eventos;
  5. Não colocar fotos dos seus filhos sem roupa (nem se forem bebês…tem louco pra tudo!);
  6. Não colocar fotos do seu filho com o uniforme ou qualquer coisa que identifique o nome da escola
  7. Desabilitar a localização geográfica de fotos do Instagram (porque qualquer um pode ver onde as fotos foram tiradas no mapa de fotos);
  8. Evitar dar detalhes da rotina da família;
  9. Checar se os perfis da sua família próxima nas redes sociais estão protegidos também;
  10. Para nós, que temos filhos autistas: cuidado com o que você posta sobre o seu filho. Pense que ele pode vir a ler no futuro. Pense se ele gostaria de ler o que você postou sobre ele. Pense em que efeito isso terá sobre ele.

A gente nunca sabe as intenções de quem “dá um Google” no nosso nome. A gente nunca sabe, de verdade, quem está do outro lado da tela do computador. Como diria minha avó, “cautela e canja de galinha não fazem mal a ninguém”.

Quer ler o que as minhas colegas blogueiras escreveram sobre o mesmo assunto?

Aqui vai (aos poucos vou adicionando):

Leia Mais

5 segundos de distração e…

Como vocês sabem, meu marido viaja um bocado. Agora, até um pouco menos. Mas, quando vai, muitas vezes, fica uma semana inteira fora. E ficar sozinha com uma criança/autista/hiperativa em casa é para os fortes, néam?! Que o diga quem estava, aí, torcendo pelo fim das férias escolares!

Então, resolvi brincar um pouco. É a coisa do trágico e do cômico. A brincadeira se chama “me distraí por 5 segundos e…”.

Vocês já notaram como essas crianças são rápidas? Gente, é coisa do outro mundo! The Flash perde!

Vou começar aqui. Tenho vários exemplos do que acontece nesse tipo de situação! Depois, a bola vai pra vocês! :D

Me distraí por 5 segundos e…

  • Quando percebi, ele tinha subido em uma cadeira, aberto o armário, pegado uma caixa de biscoito e já estava na metade do pacote.
  • Um copo d’água foi sutilmente despejado no meio da minha cama.
  • Quando olhei, Theo estava com a boca aberta, com cara de riso, e a Lola lambendo até a garganta dele.
  • Quando olhei para o branco de trás do carro, Theo estava comendo a neve que grudou na bota.
  • Ele pegou um pote de sorvete na geladeira e estava comendo com a mão.
  • Ele despejou um vidro de shampoo e um tubo de pasta de dente na banheira.
  • Deu uma baita mordida em uma cebola que eu estava picando.
  • Jogou vários brinquedos na água da Lola.
  • Arremessou um abacaxi descascado inteiro pela janela da cozinha no décimo quinto andar. (!!!)
O triste fim de um abacaxi descascado

O triste fim de um abacaxi descascado

  • Ele pegou um docinho na festa, mordeu, não gostou, e devolveu mordido para a cesta de doces.
  • Ele roubou uma batata frita de uma pessoa no Mac Donalds.
  • Deu uma lambidona no espelho do elevador.
  • Quando morávamos no apartamento em SP, ele fugiu pela porta que estava destrancada, invadiu a casa da vizinha, correu para o quarto dela e começou a pular na cama do casal. Sorte que, aparentemente, não tinha ninguém em casa (apesar da porta estar destrancada) e deu tempo de eu correr com ele de lá!

UFA! Passo a bola pra vocês agora! O que já aconteceu de engraçado por aí quando você se distraiu por 5 segundos? :D

Leia Mais
00004344563