Os mistérios do autismo

Quem lê esse blog há algum tempo sabe que uma das minhas frases favoritas é “Theo é um mistério”. Um mistério que eu amo tentar desvendar no dia a dia.

Theo não fala ainda, mas aqueles olhos dizem tanto! Mostram-se atentos a tudo o que acontece ao redor. Percebem até o que a gente não gostaria. Insistem, buscam, são curiosos.

(arquivo pessoal)

(arquivo pessoal)

Na reunião que tive com a escola, há 2 semanas, a psicóloga que avaliou o Theo disse que ele tem algo que o distingue bastante dos demais alunos com autismo da classe: a curiosidade e a iniciativa. Ele tem interesse por qualquer coisa ou pessoa nova que surja no ambiente. É investigativo (lembro que meu pai dizia isso dele desde bebê). Theo tem uma motivação natural que pode ser muito bem usada se descobrirmos como.

Também não é novidade pra vocês que, muitas vezes, eu sinto como se estivesse, simplesmente, com uma criança que não fala. E que essa parte, em especial, tem sido uma grande montanha russa na nossa vida.

Pois bem. Na última semana, Theo teve um salto no desenvolvimento. Já vínhamos percebendo, há umas 2 semanas, que ele estava balbuciando sons aleatórios. Pois, de uma semana pra cá, ele adicionou, de vez, o “papá” ao seu curto vocabulário. De forma funcional!!!

Também começou a me chamar para tudo o que incomoda. E, geralmente, o que incomoda é a Lola. :)

Fez isso com tanta frequência que eu consegui filmar! Um “mãããã” com contato visual que praticamente significou “mãe, olha ela!!!”. Mal sabe ele que, com esse “mã”, ele consegue tudo o que quiser de mim…

Para completar, sua imitação de sons melhorou muito. E ele andou respondendo a perguntas! Pela primeira vez em 4 anos, vemos o Theo usar palavras de forma funcional. Pela primeira vez na vida, vemos ele responder a perguntas!

Aqui vai um resuminho dos progressos da semana.

E não foi só a parte da fala. Theo está interagindo de forma mais positiva. Tem buscado o contato conosco, inclusive o visual, com mais frequência. Tem estado mais presente nas situações. Tem demonstrado compreensão total do que acontece ao seu redor.

Anteontem, um momento de ternura total. Estávamos sentados, os dois, no sofá, quando ele pegou minha mão, entrelaçou seus dedinhos nos meus, depois levou-a até a boca e deu um beijo. Derreti…

Ontem à noite, ele estava enrolando para ir dormir. Sempre me lembro da Marie Dorion nessas horas. Ela diz para a gente dar a “ilusão do controle” para a criança. Então, mandei minha tradicional pergunta: “Theo, você quer ir dormir com o papai ou com a mamãe?”. Normalmente, ele pegaria na mão de um dos dois e levaria para o quarto. Mas não ontem. O que ele fez foi responder prontamente “PAPAPA”.

E por que tantos progressos de uma vez? O que fizemos de diferente? O que aconteceu?

Podemos analisar o ambiente externo, porque, o que acontece no cérebro dele é uma verdadeira incógnita. E foi pensando, quebrando a cabeça, que eu cheguei à conclusão de que NADA significativo aconteceu. Pelo menos não nessa última semana, quando os maiores progressos vieram.

Voltando um pouco mais, há um ano, vejo que Theo rompeu absurdamente com a rotina. Mudou-se duas vezes de país, de casa, de escola e de idioma. O quanto ele ter saído da zona de conforto deu uma puxada no desenvolvimento?

Em fevereiro deste ano, também veio a Lola. Não tenho dúvidas de que ela o força a se comunicar. Dia desses, vi uma cena hilária. Ela roubou um dos brinquedos dele e ele tentava, sem sucesso, tirá-lo da boca dela. Enquanto tentava, mandava todos os vocábulos que sabe falar. “Pá”, “mã”, “ssss”, qualquer coisa pra ver se funcionava e ela largava!

E, para encerrar minhas hipóteses, Theo faz terapias intensivas desde os 2 anos de idade, quando foi diagnosticado. Por coincidência, atualmente, Theo não faz nada além do ABA na escola. Nunca esteve tão “folgado”. E também nunca o vi tão feliz. Ele é um sorrisão só, todo o tempo. Dá gosto de ver.

Quando fizemos a imersão com o terapeuta Eric Hamblen, uma das coisas que ele me falou sobre a regressão da fala do Theo é que nossos meninos, muitas vezes, ficam sobrecarregados. São tantas intervenções, tantas exigências ao cérebro que, muitas vezes, ele “encosta” a fala por um momento para conseguir lidar com todas as demandas. Eu nunca me esqueci daquilo. E, vendo o que está acontecendo agora, não duvido que o Eric tenha razão.

De qualquer forma, está óbvio pra mim que, quando investimos nas intervenções, o retorno vem. O que difere é a velocidade com que ele vem para uns e para outros. E, muitas vezes, também a intensidade. Esse é o grande mistério do autismo: a neurologia de cada um.

Sim, o autismo é um mistério. Cada resposta vem com mais um milhão de perguntas. Mas uma coisa é certa: os progressos vão vir. Os saltos no desenvolvimento vão aparecer! Basta fazer nossa parte, ter paciência, e acreditar sempre no potencial das nossas crianças!

 

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Uma montanha russa chamada “fala”

Já ouvi muita gente se referir ao autismo como uma montanha russa. Aqui em casa, o autismo até consegue ser bastante previsível. Mas a fala…ah, gente. Essa é a minha montanha russa!

Theo começou a balbuciar aos 5 meses. A primeira palavrinha foi “papa” (que começou com o famoso “papapapapa”).

Esse vídeo é delicioso:

Um mês depois, aos 6 meses, foi o “mamã”.

Aos 2 anos, veio o diagnóstico e ele iniciou fono e comportamental.

Até os 2 anos e meio, mesmo com o autismo já tendo se manifestado de forma mais forte, ele continuava cantando partes de músicas e falando palavrinhas isoladas, nem sempre com intenção de comunicação.

Theo tinha umas ecolalias muito engraçadas. Teve uma época em que, do nada, falava “MABOOOOUA”. E a gente ficava sem entender. Depois de um tempo quebrando a cabeça, fui lembrar que tínhamos visto um filme em que se falava a mesma frase toda hora: “tudo numa boa!”. Bingo!

Mais perto dos 3 anos, ele começou a querer juntar duas palavrinhas. Se olhava um livro onde havia uma bola, ele falava “a bóa”, por exemplo. Chegou a me avisar uma vez em que tinha feito cocô na fralda e, até mesmo, pediu batata durante o almoço. Esta cena, aliás, nunca vou esquecer, porque ele começou a falar baixo “atata”. Eu e a babá dele nos olhamos e eu elogiei: “que lindo, filho, você falou batata!”. E ele continou: “atata, atata, ATATAAA, ATATAAA”. Foi quando percebemos que ele estava pedindo, e não simplesmente falando.

E foi a partir daí que a coisa se complicou. O quadro de autismo do Theo deu uma piorada entre os 3 e 4 anos. Foi quando o sensorial dele se complicou de vez, veio o comportamento restrito e repetitivo, e ele perdeu, em poucos meses, TODA a pouca fala que tinha. Nem o “mamã”, que ele falava sempre, salvou. Já conversei com alguns médicos sobre isso e a maioria concorda que pode ter sido devido a uma poda neuronal que acontece nessa idade, quando o cérebro faz uma “autolimpeza” e elimina conexões neuronais que não estão funcionando da melhor maneira.

Depois dos 4 anos e de ter perdido TUDO, começou a falar “dá”. Era “dá” pra tudo, com a maior empolgação. Um psiquiatra infantil me disse, na época, que a fala só iria aumentar, e que ele não perderia mais. Mas perdeu, sim. Do nada, parece que esqueceu o “dá”.

O máximo que conseguimos depois foi um “ah”.

Ano passado e até mudarmos pra Londres, ele falava, além do “mamã”, “bibi” (apelido da babá dele) e “a-bi” (um “abre” meio separado, porque ele tinha dificuldade em juntar as 2 sílabas). E, foi em Londres que ele aprendeu o “má” (“more”, ou “mais”), que ele usa até hoje pra tudo o que quer. Lá, também, aprendeu um som de “s”. E, quando a Lola chegou, veio o “oua”, que ele ainda fala bastante. Mas…perdeu o “a-bi” e o “bibi”. =/

Faz uns 4 dias que o Theo tem falado umas sílabas malucas. Até palavra ininteligível de 3 sílabas apareceu.

Esse bonitão adora surpreender!

Esse bonitão adora surpreender!

 

Sabe quando a criança típica está aprendendo a falar e vem com aquela linguagem própria? Pois é. Dizem que isso é bom sinal. Mas isso também já aconteceu em outras épocas e foi embora de novo. =/

Mas uma coisa muito boa: desde anteontem, aparentemente, temos uma nova palavrinha que é “papa”, ou “papapa”. O pai dele não poderia estar mais feliz! :)

Eu digo que o Theo é meu maior mistério. Um menino lindo que entende praticamente tudo o que falamos com ele em português, muita coisa em inglês e, segundo os próprios professores, algo em sueco. Tem horas em que parece que estamos lidando, simplesmente, com um garotinho que não fala!

E o que eu aprendi até hoje com essa montanha russa?

  • Existe uma pequena chance de que meu filho não venha a falar. É chato falar isso, mas é um fato. Ao mesmo tempo, se você me pergunta se vou desistir, a resposta é NUNCA.  Vou continuar tentando o resto da vida. Suco, aqui, vai golinho a golinho e ele tem que pedir “mais ssss” toda vez.
  • No entanto, a vida não para enquanto a fala não vem. O importante é que meu filho aprenda a se comunicar! E, para isso, estamos investindo no PECs na escola e vamos trazer pra casa.
  • Qualquer palavrinha que ele fala desencadeia uma ação imediata. Nem que seja uma baita festa com cócegas, mas pra ele ver que as palavras têm poder.
  • Um dia de cada vez. Não é porque agora ele está falando “papa” ou balbuciando que eu vou acreditar que “agora ele vai falar”. Já passamos por isso algumas vezes pra aprender a dosar as expectativas. Às vezes, parece que são 2 passos pra frente e 1 pra trás, mas o importante é continuar andando!

E aí? Qual a montanha russa de vocês?

 

 

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Minha vida anda

Receber um diagnóstico de autismo é algo que faz a vida empacar por um tempo.
Você é mãe de primeira viagem, totalmente inexperiente. Não tem sobrinhos, não tem amigas com filhos pequenos. O que seus olhos veem é uma criança linda, perfeita, só um pouco introspectiva, meio teimosa, e com audição seletiva.

 

A partir do momento em que um neuropediatra diz “seu filho tem o que chamamos de Transtorno Global do Desenvolvimento”, todo o resto fica menos importante. Depois disso, a gente se esquece das visitas obrigatórias ao pediatra, dos reforços das vacinas, da roupa de caipira que deveria ser comprada para a festa junina da escola.

 

E, quando vemos os sonhos que tínhamos para nossos filhos serem feitos em pedaços diante de um diagnóstico, esquecemos quem somos, do que gostamos, o que almejamos. Eu me sentia um fantasma vagando em meio às pessoas na rua, no trabalho, no supermercado.

 

A vida para.

 

Mas o luto vai, aos poucos, cedendo. Novas amizades trazem boas notícias. Os novos aprendizados desanuviam o céu e tornam tudo menos assustador. Aos poucos, você começa a entender melhor o seu pequeno, como ele pensa, como ele funciona. Também aos poucos, consegue se comunicar melhor com ele, mesmo na ausência da fala. Com as terapias apropriadas, os progressos vão surgindo. E a esperança vira sua melhor amiga. A vida volta a andar.

 

Nada como o tempo!

Nada como o tempo para dar uma nova perspectiva!

 

E é quando você percebe que, naquele período de mergulho intenso no universo do autismo, você esqueceu quem era. Esqueceu-se do que gostava antes disso tudo. Esqueceu-se dos sonhos que ainda queria realizar. Esqueceu-se do que te dá prazer.

 

Atualmente, minha vida anda quando me lembro de quem sou. Quando consigo, mesmo que rapidinho, um tempo só pra mim. Seja para ver uma série na TV, fazer minhas próprias unhas no sofá, dar uma volta com o cachorro respirando o ar frio do outono e admirando as folhas marrons e amarelas que se misturam pelo chão.

 

Minha vida anda quando decido que não estou velha para realizar um sonho antigo. Morar na Suécia, que é um país bem frio, me fez ressuscitar um desejo de infância: aprender a patinar no gelo. E esse tem sido o meu momento mais especial da semana: algo que faço por mim, para mim, com o maior prazer do mundo.

 

Meu momento especial da semana (arquivo pessoal)

Meu momento especial da semana (arquivo pessoal)

 

Há pouco tempo, perguntei, na fan page do Facebook, qual foi a última coisa que você fez por você mesmo/a. As respostas não foram lá muito animadoras.

 

Acredito que os filhos são felizes quando os pais são felizes. Fazer a vida andar é importante para toda a família. E é o que estamos tentando fazer por aqui! :D

 

Pensando nisso, queria convidar vocês para participarem do grupo Minha Vida Anda, que a Calçados Bibi criou, no Facebook, onde podemos discutir todos os assuntos que nos afligem enquanto pais e mães, dar risada, desabafar, compartilhar, desanuviar e fazer a vida andar!

 

Pra entrar no grupo, basta clicar AQUI e solicitar a participação!

minhavidaanda

E anotem aí: quarta-feira, dia 5 de novembro, das 16 às 18hs, eu vou estar no grupo pra puxar a discussão e bater um papo bem legal com todo mundo! Vejo vocês lá!
 

 

selo publi
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Mais amor, por favor

Era uma vez uma mulher com valores, hábitos, gostos, preconceitos.

Esta mulher engravidou. Depois de nove meses, nasceu um lindo bebê chamado Theo. Aos 2 anos, ela descobriu que Theo era autista. E começou a sentir na pele todo o preconceito das pessoas com relação ao jeito do seu filho ser, brincar, fazer barulhinhos, andar, se expressar.

E foi a partir daí que ela começou a rever seus valores, seus hábitos, seus gostos e seus preconceitos.

Depois de um tempo, ela resolver fazer um blog para, dentre outras coisas, ajudar a trazer esclarecimentos e diminuir o preconceito. E, através desse blog, ela conheceu milhares de outros pais de autistas. Alguns passaram a ter contato diário com ela pelas redes sociais.

O tempo passou.

2014, eleições. Há poucos dias, escrevi o seguinte texto no meu Facebook pessoal:

“Ensaio Sobre a Cegueira não é um livro sobre uma doença misteriosa. The Walking Dead também não é uma série sobre zumbis. No fundo, ambos mostram como o ser humano pode revelar o seu pior em situações extremas”.

Que espetáculo triste…

Desde ontem, tenho visto pessoas ofendendo negros, pobres, nordestinos. Publicando memes extremamente depreciativos com a imagem de pessoas humildes. Usando adjetivos como “burro”, “retardado”.

Já seria triste o suficiente se isso viesse de qualquer pessoa. Mas está vindo, também, de pais de crianças com deficiência! Pais que vivem por aí pedindo aos outros tolerância para com seus filhos! Pedindo o fim do preconceito, pedindo para que respeitem a diversidade humana. Mas que tipo de hipocrisia é essa??

“Respeitem o meu filho. Não tenham preconceito para com o meu filho. Mas esse nordestino burro que não gosta de trabalhar ferrou com todo mundo, hein?!”

Eu acredito que um filho com necessidades especiais faz a gente evoluir. Eu sinto que evoluí. Tenho milhares de defeitos que, quem me conhece bem, sabe. Mas luto diariamente contra os meus preconceitos. Devo isso ao meu filho. Devo a ele um mundo melhor nesse sentido, e o exemplo tem que partir de mim.

Mas, infelizmente, eu acho que tem muita gente por aí que não entendeu essa mensagem. Queria dizer que ainda é tempo. Olhe para o seu filho ou filha que está aí do seu lado. Pense se gostaria que começassem a dizer por aí, no futuro, que não querem trabalhar pra sustentar seu filho que não produz. Que ele é um inútil, encostado, sustentado.

créditos: campanha do Ministério da Justiça

créditos: campanha do Ministério da Justiça

E, não. Discurso de ódio não é “opinião”. É racismo, xenofobia, homofobia.

E, se você acha que eu sou intolerante porque não aceito discurso de ódio disfarçado de opinião, talvez você tenha razão. Sou intolerante com preconceito. Meu filho me fez assim, e sou grata a ele.

Cada um pode ter sua opinião, defender seu candidato, votar em quem quiser. Ofender e depreciar quem pensa diferente por quaisquer motivos é baixo, é lamentável.

Algumas pessoas que eu conheço e amo tentaram colocar panos quentes. “Pessoas são assim mesmo. Falam besteira sob forte emoção”. Eu acredito que a emoção põe para fora aquilo que já estava lá dentro, represado. É como dizem da bebida: “as pessoas falam, bêbadas, o que pensaram sóbrias”.

Eu poderia simplesmente ignorar. Mas sinto muito. Não vou me calar frente a essa situação tenebrosa.

Se você vive em alguma realidade paralela onde acha normal sair ofendendo assim as pessoas, por favor, entenda que prefiro distância.

É triste falar isso pra qualquer pessoa. É mais triste ainda ter que falar pra alguns pais de crianças autistas ou com deficiência.

 

 

 

 

 

 

 

 

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Quando a gente se engana

Dias atrás, postei a foto abaixo na fanpage do Facebook:

 

A discussão que seguiu foi bem interessante. Muitas mães reclamaram que nunca foram avisadas pelos médicos ou fonos sobre a hipotonia de língua, e algumas fonos esclareceram outros fatores que causam essa condição, além de alertarem para os cuidados ao manusear o rosto da criança com massagens.

Quatro dias depois, uma amiga de infância postou esta foto na minha timeline:

(arquivo pessoal)

(arquivo pessoal)

A foto foi tirada quando ela nos visitou em SP alguns meses após o nascimento do Theo. A legenda era “diretamente do meu resgate do Orkut”.

Sabem como é ter a verdade escancarada ante os olhos? É como se um véu tivesse sido tirado do meu rosto. É como se aquela neblina que me turvasse a visão finalmente cedesse à luz do sol e me permitisse enxergar, com clareza, a estrada.

Perguntei à Bruna quando, exatamente, tinha sido essa visita. Ela me respondeu que foi no início de Janeiro de 2009. Theo tinha, portanto, 7 meses recém completados. E a linguinha estava ali, para fora da boquinha do meu bebê tão lindo.

Imediatamente, chamei uma fono que eu conheço pelo Facebook e perguntei se, nessa idade, a língua, assim para fora, seria considerada anormal. E ela me confirmou que sim. E que isso também pode ser causado por problemas respiratórios, coisa que o Theo nunca teve.

Quem acompanha este blog há muito tempo, talvez já tenha entendido onde quero chegar. Eu sempre falei que o Theo foi um bebê normal, e que o autismo só se manifestou por volta do primeiro aninho. Sempre considerei o autismo do Theo como “regressivo”. Até tratei disso nesse post aqui.

Para mim, o autismo, que já estava nos genes, começou a se manifestar por algum gatilho ambiental por volta do oitavo ou nono mês. Eu, inclusive, considerava que uma otite feia que ele teve aos 8 meses – um mês após esta foto, portanto – teria sido esse gatilho. Eu me enganei. Eu estava errada. E, naquele dia, vi isso com uma clareza indiscutível.

Ao comentar isso com a amiga que postou a foto, em particular, ouvi, dela uma confissão. Anos depois, já após saber do diagnóstico, ela conversava com o pai. E foi quando ele a lembrou de que, dentre os comentários que ela fez sobre o Theo naquela visita, ela citou “diferente”, “ausente” ou “alheio”.

Sim, há vídeos do Theo imitando e batendo palminhas aos 8 e aos 9 meses. O que fica claro pra mim é que o quadro de autismo se agravou bastante até o primeiro aninho…mas ele SEMPRE esteve ali. Sutil, disfarçado, quase imperceptível, mas presente.

Theo sempre foi extremamente agitado desde a gravidez. Até hoje, nunca ouvi um bebê chorar mais alto que ele, que também enjoava de qualquer brinquedinho em 5 minutos. O desmame foi tão fácil que ninguém acreditava. Theo já era um bebê diferente. Theo já era o Theozão.

Sim, eu me enganei. Nunca saberei o quanto disso foi inconsciente ou não. Talvez, um dia, eu entenda as razões…talvez, eu quis acreditar que soube, por alguns meses, o que era ter um bebê que atingia todos os marcos do desenvolvimento.

Mãe também se engana. Algumas certezas, que consideramos sólidas como uma rocha, podem se desfazer ao vento como um castelo de areia.

Não, o autismo dele não foi desencadeado após uma otite. Theo já nasceu autista. Hoje, eu sei disso. Agora, posso escrever sobre isso porque a dor passou.

No dia da descoberta, me senti frágil e triste. Não senti culpa…eu sei que não tinha informação suficiente para fazer nada naquela época. Mas me senti uma fraude, uma pessoa que se enganou por 4 anos.

Dormi na cama do meu garotinho e chorei olhando aquele rostinho tão familiar. E, quando ele acordou de manhã, se enrolou no meu pescoço e me deu um beijo demorado na testa. Sim, o Theozão sempre foi o Theozão: carinhoso, apegado, sensível. E eu o amo do jeitinho que ele é.

 

 

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Os direitos dos outros

“Primeiro eles vieram atrás dos comunistas, mas eu não era um comunista, por isso eu não falei em favor deles.

Depois eles vieram atrás dos socialistas e dos sindicalistas, mas eu não era um deles, por isso eu não falei em favor deles.

Depois eles vieram atrás dos judeus, mas eu não era um judeu e por isso eu não falei em favor deles.

E quando eles vieram atrás de mim, não havia mais ninguém para falar em meu favor.”

Martin Niemoller (1892-1984)

 

Apenas torça pra que não comecem a achar o seu filho uma aberração e digam que algum Deus o abomina com base em um livro sagrado.

 

 Torça pra que não comecem a falar que os autistas não querem direitos iguais, mas “privilégios” ao lutarem por centros exclusivos de atendimento.

 

 Torça pra que não comecem a dizer que autistas não deveriam poder frequentar playgrounds, cinemas e aviões porque “tudo bem ser autista, mas ninguém tem obrigação de ficar aguentando autistas fazendo barulhinhos por aí”.

 

 Torça pra que não comecem a dizer que ser autista é psicológico ou é escolha, porque não há um “gene autista”.

 

 Torça pra que alguém não sugira que todos os autistas deveriam ser colocados em uma ilha por 50 anos.

 

 Torça pra não dizerem “eu respeito o autismo, mas não concordo”.

 

 Torça pra que não comecem a dizer “tudo bem ser autista, mas não precisa ser tão afetado”.

 

 Torça pra que não queiram proibir autistas adultos de se casarem ou de terem filhos porque “isso não é natural e sabe-se lá como uma criança vai crescer em um lar assim”.

 

 Torça pra que não comecem a dizer que há uma “ditadura autista”, agora que os pais de autistas estão se mobilizando para garantir seus direitos.

 

 Torça pra ninguém ir à tv aberta e falar que “autista é aberração, tem que se tratar, não pode conviver em sociedade e tem que ser combatido pela maioria”. E, depois, torça pra que não defendam essa pessoa dizendo que “ela só deu sua opinião”.

 

Imagem: http://1.usa.gov/1rAS8ns

Imagem: http://1.usa.gov/1rAS8ns

 

 Muita gente sofre preconceito por vários motivos. Mas ninguém é atacado com uma lâmpada fluorescente na cabeça só por ser gordo. Não há pessoas sendo mortas todos os dias, no Brasil, pelo simples fato de serem evangélicas. Mas isso é algo constante na vida de homossexuais, transexuais e travestis (ou LGBTs).

 

 Os mesmos nazistas que mataram milhões de judeus na Segunda Guerra Mundial, eliminaram, também, homossexuais, ciganos e deficientes físicos e mentais. Hitler considerava autistas e esquizofrênicos tão merecedores da morte quanto os homossexuais.

 

 Nossos filhos também são indesejados por muita gente. Nossos filhos também “incomodam”.

 

 Um dos meus maiores aprendizados em um ano de vida no exterior é que, via de regra, quanto maior o reconhecimento dos direitos das mulheres e das minorias, mais desenvolvido é o país. A separação entre Estado e religião, que anda de mãos dadas com os direitos das minorias, também é um indicativo.

 

 Não se engane: nossos filhos autistas são tão minoria quanto os LGBTs.

 

 Eu acredito em direitos iguais. Eu acredito que os direitos das pessoas com deficiência e os direitos dos homossexuais são, simplesmente, direitos civis. E eu acredito que ninguém tem o direito de impor sua crença sobre as outras pessoas.

 

 Todo mundo pode emitir sua opinião. Mas dizer “é a minha opinião” não torna ninguém imune a críticas. Ou a processos. É o discurso de ódio que dá a munição para que pessoas peguem lâmpadas fluorescentes e saiam por aí acertando os outros.

 

 Pai de autista com discurso de ódio contra homossexuais é o fim do mundo.

 

 Mais amor, por favor.

 

Atenção: este espaço celebra a diversidade humana em todas as suas formas. Não vou ser tolerante com a intolerância. Discurso de ódio ou preconceito disfarçado do que quer que seja não vai ser aceito no blog ou na fan page. 

 

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Não, vacinas não causam autismo.

“Uma mentira dá meia volta ao mundo antes que a verdade tenha tempo de colocar suas calças”. 

~ Winston Churchill

Começo o post já pedindo desculpas por um texto tão longo. O tema, no entanto, é complexo e merece ser tratado com atenção.

Eu me sinto, hoje, como alguém saindo do armário. Passei muito tempo tentando evitar conflitos com esse blog e a fanpage, mas o assunto é grave e guardar minhas opiniões comigo mesma não me parece mais razoável.

Eu sei que vai ser dor de cabeça, sei que devo perder muitos seguidores com isso, mas não tem problema. Nunca mantive o blog pra ter fama, muito menos dinheiro. Então, quem ficar, sabe que essa é a minha posição. E, até segunda ordem, ela é inegociável.

Inegociável porque vacinas salvam vidas.

Mortalidade por doença na era pré vacinas (esquerda) e pós vacinas (direita)

Mortalidade por doença na era pré vacinas (esquerda) e pós vacinas (direita) nos EUA

Inegociável porque crianças estão morrendo de doenças que já estavam erradicadas há anos. Chega uma hora em que “enough is enough”, como dizem os americanos. Já deu. Chega. A histeria está passando totalmente dos limites.

E, justamente porque o assunto é sério, queria fazer um pedido simples a quem for comentar: leia o texto inteiro antes. Cheque se a sua dúvida ou contestação já não está respondida no texto ou em um dos vários links onde pesquisei e me baseei, e que se encontram ao longo do post. Se eu perceber que alguém está comentando sem ler, minha única saída vai ser responder algo como “fulano/a, você não leu o texto”. 

HISTÓRICO

Vamos ao que interessa. Toda essa confusão sobre vacina causar autismo veio quando, em 1998, um médico britânico chamado Andrew Wakefield publicou um estudo, no jornal científico “The Lancet”, dizendo que a vacina tríplice (MMR) causava autismo. Sem enrolar muito mais, vamos aos fatos:

  • O sr Wakefield chegou a essa conclusão brilhante com uma amostra ENORME de…12 crianças. Isso mesmo. DOZE crianças.
  • Analisando o histórico médico das crianças, chegou-se à conclusão de que 5 delas já tinham autismo antes da MMR e 3 nem mesmo eram autistas. Wakefield sabia disso e falsificou os dados ao dizer que, em todos os casos, a regressão se deu após a vacinação. A maioria delas, inclusive, nem apresentava a tal “inflamação no intestino”que, segundo ele, teria sido causada pela MMR e levado ao autismo. Leia mais AQUI;
  • Uma investigação mostrou que Wakefield tinha recebido quase US$ 700 mil de advogados, das famílias das crianças estudadas, que pretendiam processar a indústria farmacêutica por “danos causados pela vacina”. Um conflito de interesses ENORME que ele não reportou quando publicou seu “estudo”. Você pode ler mais sobre isso AQUI;
  • Para piorar, uma investigação do jornalista Brian Deer mostrou que Wakefield estava tentando patentear “uma nova vacina MMR segura”. Isso mesmo. Bem espertão. Claro que ele negou quando isso veio à tona, mas você pode ver o documento de solicitação de patente em seu nome, onde se lê claramente VACINA, AQUI.
  • No final das contas, o The Lancet retirou o artigo e Wakefield perdeu sua licença médica por má conduta.

Acontece que o sr Wakefield arrumou fãs famosos, como a atriz Jenny McCarthy, nos Estados Unidos, que propagaram suas ideias. E o resultado disso nós estamos vendo agora: o número crescente de pais que se recusam a vacinar os filhos está trazendo de volta doenças já erradicadas. Os Estados Unidos e a Europa estão enfrentando surtos de sarampo, rubéola e até coqueluche.

A taxa de imunização no Reino Unido em 2003/2004 foi de 80%, bem abaixo dos 95% recomendados pela Organização Mundial de Saúde para garantir que não vai haver epidemias. E, em 2008, pela primeira vez em 14 anos, o sarampo foi declarado endêmico na Inglaterra e no País de Gales. Milhares de crianças estão à mercê da doença por causa do medo gerado por uma pesquisa fraudada.  (Fonte: BMJ 2011;342:c7452)

Nos Estados Unidos, 288 casos de sarampo foram reportados esse ano no primeiro semestre. É o maior número de casos nesse período desde 1994. Mais de 1 em cada 7 casos levou à hospitalização e 90% dos casos foram em pessoas não vacinadas. (fonte: CDC)

O crescimento absurdo nos casos de rubéola este ano nos Estados Unidos

O crescimento absurdo nos casos de sarampo este ano nos Estados Unidos

Mas eu sei que qualquer pesquisa no google com o tema “vacinas e autismo” vai deixar o cidadão de cabelo em pé. E, o pior: todo mundo sempre tem, também, um conhecido pra tocar um terror sobre as vacinas. Então, aqui vai um guia rápido pra você saber como se virar nesse papo:

A TEORIA DA CONSPIRAÇÃO DA INDÚSTRIA FARMACÊUTICA, A “BIG PHARMA”

Esse rende. Portanto, tem vários tópicos. Vamos por partes.

1) Alguém vai te dizer que não há estudos suficientes provando que vacinas não causam autismo.

Desde que o estudo fraudulento de Wakefield saiu, outros inúmeros foram feitos para tentar refutar ou replicar os resultados dele. Com isso, mais de 25 MILHÕES de crianças, no total, foram estudadas. E nenhum estudo (SÉRIO, veja bem) confirmou os resultados de Wakefield. Muito antes pelo contrário. Se você quer dar uma olhada em uma lista de estudos bem grande que mostra que vacinas não causam autismo, há 107 deles AQUI. Aí tem de tudo: thimerosal, calendário apertado, resposta imune a muitas vacinas juntas, TUDO.

Aliás, sobre “o perigo das múltiplas vacinações” e da “sobrecarga do sistema imunológico da criança” (que já foi provado que não causa autismo nesse estudo AQUI), você já parou pra pensar que qualquer virose ou infecção bacteriana faz isso? E os beijinhos, os brinquedos do bebê que vão no chão e na boca, nada?? E olha que a vacina é feita de vírus e bactérias desativados/atenuados. A vida real não é assim.

2) Alguém vai te dizer “ah, mas todos esses estudos foram bancados pela BIG PHARMA”, que quer ocultar os resultados.

O ônus da prova é de quem acusa, não é?! Mande a sua amiga provar. Ela pode entrar em um por um da lista acima e anotar quais foram, de fato, pagos por farmacêuticas. Eu te garanto que grande parte deles não foi. E o último e mais recente estudo, bem robusto, que examinou o histórico de 1.3 MILHÕES de crianças no mundo e provou que não há relação entre vacinas e autismo, foi tocado pela Universidade de Sydney. Você pode ler mais sobre esses resultados AQUI.

3) Alguém vai te dizer “mas eu tenho uma lista de 50 ESTUDOS CIENTÍFICOS “isentos” que provam que vacinas causam, sim, autismo”.

Eu tenho uma amiga que é modelo por profissão e fica P da vida quando qualquer subcelebridade aparece na mídia como “modelo”. É o mesmo com pesquisa científica. Tem muito caroço nesse mingau. Muito joio no meio do trigo. Existe amostra insuficiente, conflito de interesse, teste estatístico errado, pesquisas que não podem ser replicadas, que não foram revisadas por outros cientistas para checar por inconsistências, e um monte de jornal que se diz científico, mas que publica qualquer coisa se pagarem bem.

E, sobre os mais de 50 estudos que alguém te passou o link, todos podem ser desacreditados em minutos por um (ou mais) dos motivos que eu citei acima. Felizmente, alguém já fez isso. Quer ver? Clique AQUI.

4) Alguém vai dizer “ah, mas a BIG PHARMA só pensa no lucro, só quer ganhar dinheiro”.

Eu não queria ser a pessoa a te dar essa notícia. Você está sentado/a? Então vamos lá. Todo mundo quer ganhar dinheiro. Seu tio Everaldo, que tem uma van escolar, quer ganhar dinheiro. Sua prima Jaqueline, que vende brigadeiro gourmet, também quer ganhar dinheiro. O pessoal que vende suplemento alimentar também quer ganhar dinheiro. Quem vende comida sem glúten quer ganhar dinheiro. A pessoa que fala que vai “desintoxicar as vacinas” do seu filho também quer ganhar dinheiro. E até o cara que vende homeopatia quer ganhar dinheiro. (Atenção, não estou questionando a índole de ninguém! Só estou mostrando que ninguém faz nada disso de graça!)

E, quer saber de uma coisa? Se a BIG PHARMA está ocultando que vacinas causam autismo pra vender mais vacinas, eles têm péssimos consultores de negócio e estratégia. Sabia que as vacinas são menos de 3% do lucro total das farmacêuticas?

920 bilhões de dólares: lucro das farmas, em 2011, sem contar com vacinas. 24 bilhões: lucro por vendas de vacinas em 2013 (o vermelhinho do gráfico).

920 bilhões de dólares: faturamento das farmas, em 2011, sem contar com vacinas. 24 bilhões: faturamento por vendas de vacinas em 2013 (o vermelhinho do gráfico).

Aliás, onde você acha que uma farmacêutica ganha mais? Em uma dose de MMR ou em uma internação de vários dias de um criança por sarampo?

À esquerda, o que a BIG PHARMA vendeu para uma criança que não vai ter sarampo. À direita, o que vendeu para uma criança que foi internada por pegar sarampo. A conta é simples.

À esquerda, o que a BIG PHARMA vendeu para uma criança que não vai ter sarampo (a vacina MMR). À direita, o que vendeu para uma criança que foi internada por pegar sarampo. A conta é simples.

5) Alguém vai te dizer que não se fazem testes suficientes de segurança com as vacinas. 

Esta pessoa está errada. Só como exemplo, cite ESSE estudo que foi feito para avaliar a segurança e efetividade da vacina pneumocócica com mais de 37 mil crianças (perceba a diferença do tamanho de amostra com as 12 crianças estudadas pelo Sr.Wakefield)

OS TÓXXXXXICOS DAS VACINAS

1) Alguém vai dizer “vacinas têm thimerosal, um negócio que tem mercúrio, que é tóxico e causa autismo”. 

  • Várias informações aí. Pra começar, faz uns 10 anos que o thimerosal, um conservante, foi retirado da maioria das vacinas, ficando só na de gripe. E as crianças continuam sendo diagnosticadas com autismo. Aliás, a MMR, vejam só, NUNCA teve thimerosal! Que coisa, hein?!
  • Primeiro que o metabolismo do thimerosal gera Etil Mercúrio, e não Metil Mercúrio. Parece besteira, mas a diferença é grande. O Etil Mercúrio (ou Mercúrio Etílico) não acumula no corpo. O Metil Mercúrio (o mesmo encontrado em peixes) é tóxico e acumula. Pra ilustrar isso, pense no álcool. Se você ingerir o Álcool Metílico (o álcool de cozinha), pode ficar cego ou até morrer. Já o Álcool Etílico é o encontrado em bebidas como vodka e whisky.

 2) Alguém vai dizer “mas as vacinas têm alumínio e formol, que são tóxicos”.

Os sais de alumínio são utilizados para aumentar a resposta imune do corpo à vacina. Sua segurança já vem sendo provada há 70 anos, em milhões de pessoas, e raríssimos efeitos colaterais. (Gupta RK, Rost BE, Relyveld E, Siber GR. Adjuvant properties of aluminum and calcium compounds. In: Powell MF, Newman MJ, eds.Vaccine Design: The Subunit and Adjuvant Approach. New York, NY: Plenum Press; 1995:229–248)

Agora, as crianças não têm contato com alumínio só nas vacinas. Ele é abundante no ambiente (no ar, na comida, na água). Por exemplo, o leite materno contém, em média, 0,38 mg de alumínio por litro. As fórmulas infantis contêm, em média, 0,225 mg de alumínio por litro. As vacinas contém uma quantidade similar à das fórmulas. Enquanto os bebês recebem em torno de 4.4 miligramas de alumínio, nos primeiros 6 meses de vida, através das vacinas, eles ingerem mais do que isso na dieta. Bebês que mamam no peito recebem, em média, 7 miligramas, e bebês que tomam fórmula ingerem 38 miligramas no mesmo período.

O alumínio é eliminado do corpo em 24 horas (Keith LS, Jones DE, Chou C. Aluminum toxicokinetics regarding infant diet and vaccination. Vaccine.2002;20 :S13– S17). E, fazendo as contas, a quantidade de alumínio à qual as crianças estão expostas com a comida e vacinas é bem menor que a recomendada e bem menor que a considerada segura em experimentos com animais.

Quanto ao formol, ele está presente na natureza e no nosso próprio sangue. Então, serei breve:

Adaptação de um meme da página www.facebook.com/RtAVM

Adaptação de um meme da página www.facebook.com/RtAVM

Mais detalhes sobre o formol, pra quem quiser, AQUI.

3) Alguém vai dizer “mas a vacina contém tecidos de fetos abortados”.

Adaptação de conteúdo: facebook.com/RtAVM

Adaptação de conteúdo: facebook.com/RtAVM

 

BULA E VAERS

1) Alguém vai dizer “mas os próprios registros do VAERS e das bulas das vacinas falam que podem causar autismo e outros danos graves”.

O VAERS é um programa que monitora a segurança das vacinas depois de lançadas nos Estados Unidos. O objetivo é checar se algum efeito colateral que não apareceu nos testes anteriores vai surgir, para que tomem as devidas precauções.

Qualquer um pode e deve fazer reportes ao VAERS. O governo, inclusive, incentiva isso. Se você vacinou seu filho nos Estados Unidos e ele teve qualquer coisa considerada grave, mesmo que você não tenha certeza de que foi a vacina, você pode entrar no site do VAERS e colocar isso lá. Você pode, também, mencionar isso para o médico do seu filho e ele faz o reporte.

O ponto é: os relatórios do VAERS, para quem lê (inclusive partes nas bulas das vacinas) são RELATOS. Não são dados investigados e comprovados. Então, a grosso modo, se meu filho tomou uma vacina e eu achei que isso fez ele mudar de orientação sexual, eu posso reportar isso ao VAERS. E isso VAI APARECER nos relatórios da vacina em questão. Leia mais sobre o VAERS aqui.

Um estudo recente do VAERS mostrou que menos de 3% dos relatos de reações adversas relacionadas a vacinas estavam, de fato, relacionados a elas. E a maioria dessas reações adversas, após a análise, eram leves. O total de reações adversas consideradas graves é menos de 1% do total. E, para esses casos raros, há um fundo de compensações.

Então, ninguém está falando que não há riscos. Mas que eles são muito pequenos se compararmos com os benefícios das vacinas.

Outra coisa importante é que a bula da vacina tem que reportar qualquer morte ocorrida durante os períodos de teste. Mesmo que essa morte não tenha nada a ver com a vacina. Um bom exemplo é a bula da vacina Gardasil, que causou furor por falar em 40 mortes:

As razões das mortes: acidente de carro, overdose de drogas, suicídio, ferimento por arma de fogo. Justamente as mortes comuns entre adolescentes. Em um estudo com mais de 29 mil pessoas onde morreram 21 pessoas no grupo que tomou a vacina e 19 no grupo que tomou o placebo. Diferença estatística nenhuma!

As razões das mortes: acidente de carro, overdose de drogas, suicídio, ferimento por arma de fogo. Justamente as mortes comuns entre adolescentes. Em um estudo com mais de 29 mil pessoas onde morreram 21 pessoas no grupo que tomou a vacina e 19 no grupo que tomou o placebo. Diferença estatística nenhuma! Mas, isso, os antivax não contam.

Passar isso pra frente assim, pela metade, ou é falta de informação ou é desonestidade intelectual.

Mais explicações sobre os reais danos da vacina e todo o quiprocó do Gardasil, você encontra AQUI.

A lógica do pessoal antivacina é mais ou menos assim:

Não confie na BIG PHARMA! Não confie no CDC! Não confie no FDA! Eles são mentirosos e enganadores! Exceto quando eles citam efeitos colaterais nas bulas das vacinas. Isso aí é perfeito e irretocável.

Não confie na BIG PHARMA! Não confie no CDC! Não confie no FDA! Eles são mentirosos e enganadores! Exceto quando eles citam efeitos colaterais nas bulas das vacinas. Isso aí é perfeito e irretocável.

CORRELAÇÃO E CAUSA

1) Alguém pode até te dizer que viu o filho ficar autista após uma vacina.

É bem comum o autismo se manifestar em torno dos 2 anos de idade, justamente quando a criança toma a famosa MMR. Mas correlação não é causa. Aqui vai um exemplo simples disso:

Tradução do original da página www.facebook.com/RtAVM

Tradução do original da página www.facebook.com/RtAVM

Uma vacina que o Theo tomou quando tinha um ano e meio deu uma reação forte na perna dele. Ficou vermelho, inchado, e acabou tendo que tomar antibiótico por causa disso. Por algum tempo, algumas pessoas da família chegaram a pensar que “a culpa” do autismo foi dessa vacina. Até eu resgatar uns vídeos e mostrar que o autismo se manifestou no Theo antes da tal vacina. Mais precisamente, 6 meses antes.

E é justamente pra mostrar se dois fatores estão realmente relacionados que existe a ciência séria. Não é infalível, mas ainda é melhor ferramenta que nós temos.

OUTROS MITOS

1) Alguém vai te dizer “essas doencinhas que as vacinas previnem não são tão graves assim”.

  • Em 2012, houve 122 MIL mortes por sarampo no mundo;
  • A vacinação contra o sarampo resultou em uma queda de 78% nas mortes entre 2000 e 2012. Antes de 1980, quando a vacinação surgiu, as mortes chegavam a 2.6 milhões por ano. (fonte: OMS)
  • Em 2008, houve 16 milhões de casos de coqueluche no mundo, e 195 mil crianças morreram. (fonte: OMS)
  • Em 2012, foram 20 mortes por coqueluche nos Estados Unidos, uma doença que já estava praticamente erradicada e que é, muitas vezes, fatal, quando adquirida por um bebê. (fonte: CDC)
  • Uma pessoa com coqueluche pode tossir tanto que chega a quebrar as costelas! Leia mais AQUI.

E, aqui, cabe um testemunho pessoal. Meu irmão teve uma rubéola que foi confundida com sarampo aos 2 anos. Portanto, minha mãe não o vacinou contra sarampo depois.  Quando ele tinha 13 anos, veio o sarampo. Tão violento que o branco dos seus olhos ficou vermelho. E o médico falou para os meus pais que, se ele pegasse uma simples gripe, morreria. Lembro de um dia, o Guilherme aparecer de cabelo molhado à noite depois do banho. Minha mãe entrou em desespero e secou o cabelo dele e chorando. Que mãe quer passar por isso?

2) Alguém vai te dizer “mas por que o MEU filho não vacinado ameaça o seu vacinado”?

  • As vacinas são dadas em um calendário que não se completa até a criança ter 4 anos de idade;
  • Os bebês são muito vulneráveis a doenças para as quais ainda não foram vacinados e, entre eles, a mortalidade é bem maior;
Essa é a Lorena, filha da Bruna Iasi, minha amiga, quando ficou internada por 15 dias na UTI e quase morreu. Acontece que a Lorena tinha só 20 dias e pegou Coqueluche de alguém não imunizado. A história dela vai ser contada em detalhes em um próximo post.

Essa é a Lorena, filha da Bruna Iasi, minha amiga, quando ficou internada por 15 dias na UTI e quase morreu porque pegou uma coqueluche aos 20 dias de vida. A história dela vai ser contada em detalhes em um próximo post.

  • Durante um surto de doença, a criança não vacinada é mais propensa a pegar e a contaminar outras pessoas (muitas doenças são transmissíveis mesmo antes dos sintomas aparecerem);
  • Pessoas idosas, com câncer, com qualquer problema que abaixe a imunidade ou pessoas realmente alérgicas aos componentes da vacina dependem da vacinação coletiva para não se contaminarem.

Ou seja, não vacinar seu filho é uma decisão que afeta toda a comunidade, e não só a sua casa.

3) Alguém vai te dizer “mas um cientista do CDC confessou que eles ocultaram dados de uma pesquisa que mostrava que a vacina MMR causava autismo!”

Esse caso ficou conhecido recentemente como o “CDC whistleblower”. Quem lançou toda a bagunça na internet através de um vídeo no youtube foi Andrew Wakefield…aquele mesmo.

Quem teria analisado os dados e mostrado a tal correlação é um cara chamado Brian Hooker, zero qualificado para fazer esse tipo de análise, pai de uma criança autista e diretor da Focus Autism, uma ong que tem como objetivo principal provar que vacinas causam autismo. Já temos aí um conflito grande de interesses.

O cientista William Thompson, do CDC, teve sua voz gravada sem permissão por Brian Hooker, que a divulgou no vídeo de Wakefield. Ele acabou lançando um comunicado oficial dizendo que discordou de seus pares sobre excluir do estudo dados que mostravam que crianças negras apresentaram autismo após a MMR (super resumo). Mas que ele ainda acredita que vacinas são super importantes e salvam vidas e blablablabla.

Ok. Vamos lá.

Imagine que, do nada, aparece um cientista falando que o Pé Grande sempre existiu e que o governo americano escondeu evidências. E que ele participou de uma expedição onde, de fato, capturaram o Pé Grande. Mas que os parceiros dele na expedição decidiram não divulgar esse fato. O que você espera desse cara? Eu esperaria que ele divulgasse uma foto, um vídeo, qualquer coisa comprovando que, realmente, pegaram o Pé Grande, certo? Daí, o cara aparece com uma foto de um pé peludo. Pohan, seria uma pantufa? Uma pata de coelho ampliada? Por que não apareceu logo com uma foto do Pé Grande de corpo inteiro? Cadê o vídeo???

Pra mim, foi exatamente essa a sensação. William Thompson fala de dados relevantes que foram omitidos. Daí, pensei, “uau, vai vir um super negócio convincente, praticamente o Elo Perdido”. E me aparece uma análise como a do Brian Hooker? Com uma base mínima (garotos afro-americanos entre 24 e 36 meses) sem certidão de nascimento, num total de VINTE E DOIS casos! O cara torturou os dados, pegou um estudo que era caso/controle e analisou como estudo de grupo, aplicou testes estatísticos errados, em uma base mínima…e tudo pra isso?

E eu posso dizer isso com uma certa propriedade porque trabalhei com estatística e pesquisa de mercado por longos anos da minha vida. Se eu recebesse um dado assim de um instituto, eu mandaria checar imediatamente! Aliás, só de ver o número de casos como 22 (em um estudo com quase 1500 crianças), eu já desconsideraria.

Gente, desculpa aê: mas que sentido faz mais de 300% de aumento de autismo só entre um grupo de “crianças afroamericanas entre 24 e 36 meses”? Segundo os cientistas, o genoma de todos nós é 99,5% igual independente de raça ou cor.

A revista que publicou a “reanálise” do Hooker logo percebeu isso e a retirou do ar. Prato cheio para os conspiracionistas, que simplesmente não podem admitir que o material era RUIM.

Enfim…toda a bagunça está super documentada AQUI, inclusive com os reais motivos pelos quais as crianças foram excluídas do estudo. E com o link para o tal estudo do CDC se alguém aí quiser se aventurar a “reanalisar” alguma coisa.

 PARA CONCLUIR

Ultimamente, tem surgido uma certa rejeição ao rótulo de antivacina (ou antivax, como chamam nos Estados Unidos). “Ah, mas eu não sou antivacina. Eu só quero vacinas seguras”. Então, você está dizendo que as vacinas atuais não são seguras. E, muito provavelmente, você aconselha as suas amigas que estão tendo filhos a não vacinar. Então, sim, você é antivacina.

A conta disso tudo está chegando e não é barata. Várias doenças erradicadas voltando, crianças morrendo, tudo por causa de um boato iniciado há alguns anos e disseminado como verdade.

A partir do momento em que você acredita em uma teoria da conspiração, tudo passa a fazer parte dela. Qualquer pessoa que vá contra é acusada de “rabo preso”. Até eu, se bobear, vou ser acusada de estar ganhando dinheiro da BIG PHARMA (sinceramente, eu não me surpreenderia).

A lógica antivacina: O paper (de Brian Hooker) foi publicado. A conspiração é verdade!!! O paper foi retirado. A conspiração é verdade!!!

A lógica antivacina: O paper (de Brian Hooker) foi publicado. A conspiração é verdade!!!
O paper foi retirado. A conspiração é verdade!!!

Uma das perguntas que mais aflige pais de crianças com autismo é: “por que?”.
Infelizmente, sinto dizer, essa pergunta ainda não tem uma resposta completa. Um estudo sueco recente mostrou que 50% dos casos são genéticos. O resto, vem de causas ainda desconhecidas, apesar de já se ter uma noção de fatores ambientais de risco, como baixo peso ao nascer e infecções na mãe durante o parto.

O ser humano tem a tendência natural de querer respostas. Mas a ciência, infelizmente, não é onipotente. Muitas vezes, a resposta mais honesta é “eu não sei ainda”.

E uma reflexão importante:

 

Texto de Miranda Bailey - traduzido para Português

Texto de Miranda Bailey – traduzido para Português

Para terminar, a palavra dos autistas:

“Sou autista e estou doente com essa implicação de que a minha deficiência é pior do que a morte do filho de alguém”. ~ Brian K.

“Eu tenho autismo leve e estou de saco cheio dos antivacina roubarem a minha voz e me retratarem como doente ou estragado”. Christian M.

P.S 1: Todos os links levam para sites em inglês. Infelizmente, não há muita literatura confiável em português sobre o assunto. Mas basta copiar o texto e jogar no Google Translator pra conseguir entender a maior parte!

P.S 2: Um documentário MUITO legal sobre vacinas tá aqui:

P.S 3: Um agradecimento especial à pediatra e psiquiatra infantil Raquel Del Monde, que me acompanha desde o início do blog, se tornou minha amiga e incentivou e apoiou essa minha “saída do armário”. :)

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