Dor de mãe

Solange tem um filho lindo de cinco aninhos. Daniel tem os olhos mais expressivos do mundo e um sorriso cativante. Daniel é autista e não fala. Nunca falou. Só emite alguns sons sem muito significado. O sonho de Solange é ouvir Daniel chamando “mamãe”.

Marta é mãe do Felipe, autista, de 10 anos. Felipe fala mais que um papagaio e mexe no tablet como ninguém: escolhe músicas no Youtube, brinca com os joguinhos. Mas Felipe, aparentemente, tem um déficit cognitivo e, apesar dos milhares de métodos tentados, ele ainda não foi alfabetizado. Felipe também sofre bullying na escola por ser inocente demais e por ser considerado “burro” pelos coleguinhas. Quando ele chega em casa chorando, Marta chora junto com ele.

Fernanda é mãe da Lara, de 8 anos. Lara foi diagnosticada com autismo aos 2 anos mas, desde então, evoluiu tanto que, aos olhos de um leigo, não aparenta diferença. Mas Lara ainda é diferente. Não entende o duplo sentido das expressões usadas pelos colegas, não entende muito bem as pistas sociais. Lara SABE que é diferente. E, às vezes, chora no colo da mãe dizendo que “só quer ser normal como todo mundo”.

dor de mae

O Pietro, filho da Rita, nem parece mais autista. Aos 13 anos, acompanha a classe da mesma idade na escola, está enturmado e consegue ser bem independente nas tarefas de casa. Mas o Pietro, por razões que a Rita não consegue entender, ainda usa fraldas. Só consegue fazer cocô na fralda, por mais que lhe expliquem, argumentem, e ele, racionalmente, entenda que isso não é mais adequado a um rapazinho da idade dele.

Letícia, de 6 anos, é autista severa. Sua mãe, Cláudia, já teve que contê-la por várias vezes devido a seus comportamentos autolesivos. Letícia chegou a usar um capacete para evitar que machucasse a cabeça com suas incessantes batidas. Letícia usa fraldas e, quando Cláudia não chega a tempo, ela tira a fralda e espalha todo o conteúdo pela sala.

Todos os personagens acima são fictícios. O que é verdadeiro nisso tudo é algo chamado “dor de mãe”. É pessoal, intransferível.

Cada uma tem seu limiar. Cada uma sabe o quanto suporta. Só a Cláudia, a Rita ou a Fernanda sabem o quanto dói. Só a Marta e a Solange sabem de cor quais sonhos foram adiados ou, simplesmente, destruídos por um diagnóstico. Cada uma delas sabe perfeitamente o que é sofrer pelo filho e com ele.

Dor de mãe. Se não puder compreender, pelo menos respeite.

 

 

 

 

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A mãe do Theo

Sou a Andréa. A mãe do Theo.

Eu poderia escrever um texto sobre “mãe de crianças autistas”, mas eu acho as generalizações perigosas. Então, vou escrever somente sobre mim.

Essa sou eu: uma pessoa que sempre quis ser mãe. Que gostava de segurar bebês desde ficou um pouco maior do que eles. Que falava que ia ter seis filhos.

Uma pessoa que queria tanto ser mãe que já começou a tentar engravidar na lua de mel. Dois meses depois, a confirmação do sonho de infância: um bebezinho estava a caminho. O primeiro filho, primeiro neto de ambos os lados, tão amado e desejado desde que ainda era um feijãozinho.

Vi meu filho, Theo, se desenvolver normalmente até quase o primeiro ano, quando, então, começou a perder o brilho no olhar, o sorriso, o contato visual. Esqueceu-se de como fazia pra bater palmas, dar tchau, imitar a piscadinha que ensinamos a ele quando tinha oito meses.

Ouvi de um médico, pouco antes do Theo fazer 2 anos, que ele era autista. Morri um pouco por dentro. Sofri a morte daquele filho idealizado, o bebê risonho de 8 meses que imitava até a nossa tosse.

Renasci, juntei as cinzas, fui do luto à luta. Se tenho mesmo que subir essa montanha, que seja cantando e não reclamando. Celebro o filho que ganhei, que amo com todas as minhas forças, que tento compreender melhor diariamente.

Mas…

Isso não me impede de parar, de vez em quando, e chorar. Um choro dolorido pelo filho que eu, de alguma forma, perdi. Choro pelos sonhos que não vão se realizar. Choro de medo pelo futuro do filho que ganhei. Choro de culpa por nunca achar que me dedico o suficiente. Por achar que o meu melhor está longe de ser o ideal que ele precisa.

Ajudo muita gente através do meu blog. Talvez, por isso, as pessoas tenham dificuldade de enxergar que, muitas vezes, sou eu que preciso de ajuda.

Já saí sorrindo em fotos com o coração despedaçado.

Estou longe, muito longe de ser a mãe perfeita. Eu NÃO SOU um ideal de mãe a ser seguido.

Não tenho o menor talento pra terapeuta do meu filho. Basta eu tentar usar qualquer técnica que seja com ele para que ele vire as costas e me deixe falando sozinha.

Meu filho tem interesses super restritos e eu, até hoje, não consegui ampliá-los. Não consigo fazer com que ele se interesse por brinquedo nenhum, por um livro sequer. Com técnica nenhuma nesse mundo.

Tenho pânico de férias escolares. PÂNICO. Não porque quero ser livre e ir passear enquanto ele está na escola. Mas porque sei que ele está muito melhor lá – onde tem atividades estruturadas e é estimulado por pessoas que estudaram MUITO o autismo – do que em casa comigo, onde entra em tédio pela minha incapacidade total de distraí-lo e sai abrindo torneiras, derrubando frutas no chão, jogando todos os brinquedos para fora das gavetas.

E, quando alguma mãe me conta sobre o interesse de seu filho por letras e números, ou sobre as coisas engraçadas que ele fala eu penso “por que não o Theo? Por que ele não se desenvolveu tanto assim?”. E a culpa volta como facadas no peito.

Não, eu NÃO sou incansável. Muitas vezes, eu desisto de tentar, nem que seja por alguns dias. Eu me frustro. Eu perco a paciência com o meu filho várias vezes durante uma semana.

Muitas vezes, me sinto incapaz de gerenciar meu filho, meu casamento, o cachorro, minha casa, minha saúde.

Prazer, essa sou eu! Se você continuar a seguir meu blog depois disso, é por sua conta e risco.

nublado

 

 

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#poenorotulo

Seu filho é autista e faz a dieta sem glúten e caseína? Ah, você também retirou o glutamato e os corantes? Você passa raiva ao olhar os rótulos dos produtos e não achar informações claras sobre a presença desses ingredientes? Pois então você precisa ler o guest post de hoje!

A Cecília Cury – mãe super especial que conheci em um grupo do Facebook – é a principal articuladora da campanha #poenorotulo. E ela explica, nesse texto, a importância de batalharmos por mais transparência na indústria alimentícia! Leia, compartilhe e apoie essa ideia!

#POENOROTULO

Pessoas com alergia alimentar e seus familiares vivenciam uma serie de dificuldades ao buscar produtos no mercado. Como lidar com rótulos com letras tão pequenas e pouco informativas em se tratando especificamente de alergia? Nomes complicados, letra pequena, nenhuma informação sobre traços, que são resquícios de ingredientes (alérgenos) que ficam na linha de produção quando há compartilhamento com outros produtos…

 

Em virtude de um desafio constante em nossas vidas, no fim de fevereiro, foi criada uma campanha que se chama #poenorotulo que tem por objetivo garantir a rotulagem de alérgenos.

 logo poe no rotulo

Há países que preveem a obrigatoriedade do destaque de alérgenos nos rótulos, como forma de se reduzir número de acidentes por erro na leitura dos rótulos (Estados Unidos, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Japão, além da União Europeia). Contudo, no Brasil, apesar de haver uma lei sobre rotulagem do glúten, importante informação para os celíacos, não há nada que obrigue a informação sobre alérgenos nas embalagens dos produtos.

 

Fato é que, sem uma obrigatoriedade, os rótulos não são sempre confiáveis, o que acaba resultando em medo de consumir, quando não em reações pela presença inadvertida de alérgenos, em alguns casos.

 

Até a Lola aderiu à campanha!

Até a Lola aderiu à campanha!

Assim, sem esse tipo de informação, o dia-a-dia dos alérgicos é bastante complicado e com inúmeras restrições. Uma ida ao mercado pode levar horas, pois é necessário verificar as embalagens uma a uma, decifrando as minúsculas letras, interpretando termos complexos a fim de identificar se há alérgenos. E, como nem sempre as informações são claras e confiáveis, ainda é necessário buscar informações junto aos fabricantes através dos serviços de atendimento ao consumidor.

 

Mas o que se pretende rotular? Seguindo a experiência internacional, busca-se que haja a rotulagem dos ingredientes responsáveis por cerca de 90% das reações alérgicas, segundo dados norte-americanos: leite, soja, ovo, cereais que contém glúten, peixe, crustáceos, amendoim e oleaginosas.

 

As consequências da falta de informação podem variar de simples coceiras e espirros até anafilaxia, insuficiência respiratória/cardíaca, entre outras reações graves, podendo levar à morte em alguns casos.

 

Gostaríamos de contar com apoio na divulgação dessa causa que pode beneficiar milhares de pessoas, não só alérgicas, mas também os celíacos, que também têm lutado por melhor rotulagem dos traços de glúten, intolerantes à lactose, veganos, autistas que controlam a ingestão de glúten e de caseína, e todos os que se preocupam com a saúde e com o que estão ingerindo.

 

Por tudo isso, pedimos seu apoio na divulgação da campanha #poenorotulo, que será de grande importância para que se alcance um número muito maior de pessoas, e assim, conscientizar a sociedade dessa necessidade e conseguir mudar essa situação.

 

 Obrigada pela atenção!

 Cecilia Cury

Cecilia Cury é a idealizadora da campanha #poenorotulo

Cecilia Cury é a idealizadora da campanha #poenorotulo

Como apoiar:

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1 mês de Lola

O tempo não para!

O tempo não para!

A baixinha dorme, nesse momento, no tapete da sala sob os meus pés. Olho pra baixo e vejo sua barriguinha subir e descer, a respiração bem regular. Os olhinhos fechados, a expressão bem relaxada. “Minha gôda”, como eu costumo chamá-la carinhosamente.

Ontem, fez um mês que a trouxemos pra casa. Praticamente no mesmo dia, comemoramos seis meses de vida em Londres. Meio ano! O tempo não para…e a única coisa constante é a mudança. Éramos 3 quando arrumamos as malas e viemos para o velho continente. Agora, somos 4.

Nesse último mês, tanta coisa aconteceu. Lola, Lolita, a “gôda” é uma Golden Retriever tão humana quanto um cachorro pode ser: tem qualidades, defeitos, sabe encantar e também matar a gente de raiva em alguns momentos.

Em um mês, foram vários cocôs e xixis…a maioria no lugar certo, ainda bem, mas alguns no tapete da sala, onde ela dorme um sono profundo nesse momento. O primeiro aprendizado foi que cachorros e tapetes não fazem uma boa combinação.

Em um mês, foram vários “nãos”. Não pode pular no Theo, não pode pular na mesa quando estamos comendo, não pode morder, não, não, não. Tantos “nãos” que trouxeram uma reflexão. Meu marido, em um momento de frustração, comentou que, além de falarmos um bando de “nãos” para o Theo, agora, também, falávamos pro cachorro. E aqui estamos nós tentando reforçar mais o positivo do que chamar a atenção pelo negativo. Coisa bem difícil com duas crianças em casa. :)

Em um mês, tive uma boa e clara noção do que passa uma mãe de 2 filhos. Espero que ninguém se ofenda com a comparação, mas é como tenho me sentido. Theo acorda pela manhã com toda a pilha. Lola também…afinal, passa grande parte da noite acordada, ansiosa pelo momento em que as pessoas vão acordar para que ela possa brincar e interagir. E, enquanto preparo as torradas de um, corro pra limpar o cocô noturno da outra, bloqueando para que ela não pise em tudo. Enquanto isso, ouço um barulho e vejo o garotinho abrir a jarra de suco e tomar tudo no gargalo, derramando grande parte no uniforme. Se vira nos 30!

Em um mês, vi a Lola fugir para o vizinho algumas vezes. Ela foi esperta o suficiente para alargar um espaço entre duas ripas de madeira da cerca e foi para lá, feliz e saltitante, brincar com o novo amigo, o beagle chamado “Picle”.

Lola e Picle (arquivo pessoal)

Lola e Picle (arquivo pessoal)

E, nesse último mês, vi surgir uma amizade promissora entre um garotinho autista e um cachorro. Theo, que mal encostava naquela peludinha em sua primeira semana em casa, hoje em dia, pega tanto que até temos que ensiná-lo a fazer carinho. Pego sua pequena mão e sacudo bastante dizendo “molinho, molinho” pra que ele entenda que carinho se faz com a mão solta, não com os dedos enrijecidos, com força. Falo pra ele que a Lola sente dor como a gente. Que ele não pode tentar subir em cima dela ou dobrar seu rabinho. Por sua vez, Lola também tem aprendido a se controlar pra não testar seus dentinhos de bebê no Theo. O que é bem difícil, principalmente quando ele passa correndo em sua frente, em toda a sua animação e hiperatividade. Algumas blusas dele já têm buracos advindos desses momentos de empolgação mútua.

Uma linda amizade

Uma linda amizade

Mas, o mais importante: nesse último mês, várias “coincidências”. Theo, que costumava fugir para a nossa cama todas as noites há 2 anos, misteriosamente, voltou a dormir sozinho em sua cama. Sem alarde. Por vontade própria.

Nosso garotinho não verbal começou a dizer “au-au” na semana em que fomos buscar a “Gôda”. Poucos dias depois, já falava “oua” (Lola). Voltou a falar “mamãe” como se não houvesse amanhã. E, há poucos dias, também começou a falar “mó” (more = mais, em inglês) quando quer mais suco ou comida.

Um mês de Lola! Um mês de muito carinho, muitos aprendizados e algumas mudanças profundas e significativas. Agora sinto, de verdade, que nossa família está completa. Sou a legítima “mãe de cachorro”. :)

Tenho certeza de que o melhor ainda está por vir. E , desde que estejamos juntos, vai tudo dar certo.

P.S: já seguiu nosso Instagram? É @theoelola !

anjos

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Theo & Lola: um garotinho autista e seu cachorro

“Happiness is a warm puppy.” 
~ Charles M. Schulz

A ansiedade de tirar um cachorrinho de perto de sua mãe e irmãos e levar para a sua casa é muito grande. Ele ali tem conforto, afeto, aquele é seu mundinho ideal. O que o espera depois depende daquelas pessoas estranhas, com cheiros e vozes que ele ainda não conhece. E era isso que eu tinha em mente naquele dia, há pouco mais de uma semana, quando fomos buscar a Lola.

E a ansiedade dobrou porque, além do cachorrinho, havia um garotinho autista dentro do carro. Passamos a semana dizendo pra ele que buscaríamos o seu cachorro, que o nome dela era Lola, e que ela iria morar com a gente. Naquela semana, ele acordou várias vezes dizendo “au-au”, o que é um enorme feito para uma criança ainda não verbal.

E esse garotinho também tem um certo medo do desconhecido. Não sabe o que esperar daquele animalzinho, nunca teve contato com nenhum filhote e tem total consciência (eu sei) de suas próprias dificuldades de interação com as pessoas…como será que ele se sairia com um cãozinho?

Lola é um filhote. Ainda não tem a menor noção do que é aceitável ou não em termos de proximidade. Já entrou no carro querendo se aninhar em cima do Theo, que reagiu reclamando bastante. Fiquei ali no banco de trás com os dois na tentativa de mediar essa insistência dela, já apaixonada pelo garotinho que acabara de conhecer. E os olhares foram acontecendo…meio tímidos, no início. Mais insistentes em questão de minutos. E o garotinho, enfim, começou a se interessar por aquela criaturinha peluda que insistia em estar perto dele. Em mais ou menos meia hora já estava assim:

Lola chegou há pouco mais de uma semana, mas já passou por muita coisa. Sua primeira noite em nossa casa foi marcada por um cano que estourou no teto e inundou do banheiro à cozinha. Água jorrava por todos os spots e fomos forçados a ir para um hotel passar a noite. Passei uma hora pesquisando “hotéis pet friendly” na nossa região.

Em questão de 2 dias já tinha aprendido a fazer suas necessidades no tapetinho. Foi também em poucos dias que entendeu que seu lugar de dormir é no andar de baixo e fica ali boazinha quando subimos para nossos quartos. Ela é, realmente, muito esperta.

Mas a pergunta que não quer calar é: e o Theo? Bom. O Theo vai se acostumando com ela a cada dia. Já tem até se irritado menos com a pior mania dela: morder. Coisa de filhote, e que vamos resolver na semana que vem, quando a adestradora vem em casa.

Também já tenta interagir do jeito dele. Ainda não tem muita coragem de colocar a mão, mas já arrisca o pé!

Theo e Lola (arquivo pessoal)

Theo e Lola (arquivo pessoal)

 

Já está aprendendo a lidar até com a insistência dela em certos casos. E isso rende episódios hilários como esse:

Aquele medinho do início já diminuiu bastante. Prova disso é que ele até quis compartilhar o banho com ela:

Tenho certeza de que muitas outras histórias virão por aí. Lola ainda é muito bebê…ainda vai aprender como se aproximar do Theo de uma forma mais “aceitável”. Também vai ficar mais tranquila à medida em que cresce, e isso já vai fazer uma baita diferença.

O que posso dizer nessa uma semana de convivência é que sinto que nossa família está completa. E que a Lola vai fazer muita diferença na vida do Theo, meu garotinho não verbal que, agora, já fala “au-au” e “Oua” (Lola). Não é um progresso incrível em tão pouco tempo?

Pra terminar, queria deixar umas poucas dicas pra você que quer adquirir um cachorro (falo “adquirir” porque você pode comprar ou adotar…):

  • Cachorro é animal de companhia. É visível o quanto quer estar perto de gente. Por favor, não coloque um cachorro em casa pra ficar sozinho o dia inteiro (já fiz isso uma vez e me arrependo amargamente…).
  • O animalzinho é outro filho. Precisa de comida, médico, remédio, vacinas. Também não coloque um em casa se não quiser ter gastos.
  • O adestramento é bem importante para ensinar o cachorro a não pular e não morder. Isso vai facilitar bastante a criação do vínculo entre ele e o seu filho.
  • Até ele aprender a fazer cocô e xixi no lugar certo, vai fazer no chão mesmo. Vai destruir coisas quando ficar com tédio (mesmo com vários brinquedinhos). Então, além de comprar várias coisas pra ele roer, não deixe nada no chão que não possa ser mordido.

Se não quiser bagunça, não tenha um cachorro. Compre um bichinho de pelúcia que é mais garantido! :D

P.S: O Theo e a Lola, agora, têm um Instagram só deles! Quer acompanhar todas as peripécias dos dois? Siga a gente no @theoelola !

Siga os dois no Instagram: @theoelola

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Theozão: o turista

Semana passada foi o que eles chamam de “half term” aqui na Inglaterra. Basicamente, é uma semana sem aulas (pausa para o pânico materno). Para piorar, meu marido avisa que ia para o México a trabalho. Pensei, pensei e decidi: Theozão ia dar um rolé na Holanda com a mamãe. Mas por que a Holanda?

E é aqui que entra a história de uma linda moça de Manaus chamada Michela. Há alguns anos atrás, ela trabalhava em uma locadora de veículos em Fortaleza. Ficou conhecendo um rapaz holandês (com jeitão de brasileiro) chamado Marco, que trabalhava com turismo. E isso tudo virou uma linda história de amor: eles se casaram, tiveram a Camila e se mudaram de volta pra Holanda, mais precisamente pra uma cidadezinha chamada Zwijndrecht, a apenas meia hora de Rotterdam.

Michela e Marco (arquivo pessoal)

Michela e Marco (arquivo pessoal)

Acontece que a Cami teve diagnóstico de autismo na Holanda. E a Michela, fuçando na internet, caiu nesse blog. E foi uma das primeiras a comentar tudo o que eu postava. Com o tempo, pensei “essa pessoa é legal”. E viramos amigas de Facebook. Batemos muuuuuitos papos virtuais. E ela, como uma boa brasileira, é hospitaleira. Deixou claro que gostaria que fôssemos visitá-la assim que possível. E lá fomos nós!

Rotterdam fica a apenas 50 minutos de avião de Londres. Juntei meu kit viagem: Ipad do Theo, o connector, petiscos e o foda-se (aquele botão que a gente liga quando olham feio pro nosso filho). E foi tudo super tranquilo!

Chegando lá, tive o prazer de conhecer pessoalmente a fofa da Shirlene! (Se você não conhece a Shirlene, é porque ainda não leu esse post AQUI). E fomos dar uma volta em um lugar lindo, totalmente “chavão”, cheio de moinhos!

 

Eu, Michela, Shirlene, Cami, Theo e Nina (na barriga da Shirlene) :)

Eu, Michela, Shirlene, Cami, Theo e Nina (na barriga da Shirlene) :)

 

Theo curtindo um cafuné da tia Shirlene

Theo curtindo um cafuné da tia Shirlene

 

Quando pensei em ir visitar a Michela, nunca imaginei que passearíamos tanto. Aliás, achei que ficaríamos mesmo em casa fofocando. Mas eu não sabia do detalhe desse potencial do Marco para agente de turismo. :)

E esse casal maravilhoso nos levou a Amsterdam no segundo dia. Theo passeou de barco, ficou encantado com os canais e correu bastante atrás dos pombos, claro.

 

Em frente à estação de trem

Em frente à estação de trem

pombos

Olha lá os pombos!

 

Theo e Cami descansando

Theo e Cami descansando

No terceiro dia, fomos a uma cidadezinha minúscula e linda da Alemanha chamada Monschau. Uma coisinha fofa, nada turística e escondida entre as montanhas.

Eu, Theo e Cami em Monschau

Eu, Theo e Cami em Monschau

foto (9)

A cidade vista de cima

Theozão esbanjando charme na praça principal

Theozão esbanjando charme na praça principal

E, pra terminar, o último dia. Fechando com chave de ouro, fomos a Antwerp, na Bélgica, a apenas 40 minutos de carro da casa da Michela. Theozão pode admirar os painéis de Rubens na Catedral e provou o melhor chocolate do mundo.

Theo e Rubens

Theo e Rubens

Hipnotizado

Hipnotizado

Tudo de bom e mais um pouco. Uma baita experiência pra mim e pro Theo. Foi tudo tão intenso pra ele que o mocinho ia dormir às 18:30, 19hs! Com certeza, o cérebro estava processando um bocado de informação, e isso é muito positivo para o desenvolvimento dele!

E uma mensagem pra vocês: saiam com seus filhos. Não precisa ser na Holanda nem na Bélgica. Levem ao shopping, ao playground, viagem por perto de casa.

Vai haver algum stress? Possivelmente. Nossas crianças não costumam lidar muito bem com frustração, então vão se jogar no chão em algum momento, vão gritar, vão fazer barulhos. Mas esqueça o olhar do outro! Lembra do botão? Ligue! :)

O mundo não vai aprender a conviver com nossas crianças e a respeitá-las se as mantivermos trancadas em casa! E elas tampouco vão aprender a se comportar no mundo se não as expusermos a ele!

Para terminar, queria falar um pouco dessa menina linda chamada Camila. Ela aprendeu a falar inglês sozinha (e com um lindo sotaque britânico) apenas assistindo Charlie & Lola na tv!

Camila, a boneca

Camila, a boneca

A Cami é autista muuuuuito leve. Basicamente, o que ainda sobrou de autismo nela:

  • a famosa “sinceridade” (dei boas risadas com ela)
  • uma sensibilidade olfativa bem acima do normal. Ela sente cheiros do arco da velha e define tudo que não gosta como “biscoito de queijo”.
  • uma sensibilidade muito aguçada e uma certa dificuldade em lidar com as emoções, principalmente as ruins.

Cami se apegou a mim desde o início. A foto abaixo diz tudo. Acho que eu estava lá há apenas 2 dias quando ela disse para o Marco em holandês que “estava apaixonada por mim”. :)

Bagunça no sofá!

Bagunça no sofá!

E ela sentiu muito, mas muito mesmo, a aparente “indiferença” do Theo. Chorou algumas vezes questionando por que o Theo não queria brincar com ela, ou dizendo “o Theo não gosta de mim”. E eu tentei explicar…o Marco tentou explicar…a Michela também. Falamos que o Theo ainda não sabia brincar, que ele era como um bebê apesar de ser grande. Não adiantou…

E, um dia antes de irmos embora, ela continuava sensível e chorou muito. Disse pro pai que eu não podia ir embora. Como ela iria falar comigo?? “Papai, ela não pode ir embora! Somos uma grande família!”.

No último dia, ela sentou ao meu lado no sofá, colou o pé no meu e falou “Andrea, I’ll miss you” (Andrea, vou sentir saudades de você). E estava bem chorosa. Aquilo partiu meu coração.

No aeroporto, enquanto esperava o voo com o Theo, eu ia lembrando dela e chorando. Via as fotos e chorava mais um pouquinho.

Queria dizer pro Marco e pra Michela, novamente, o que já disse lá: eles têm um tesouro em casa. Essa menina é uma jóia. Tanta sensibilidade e amor não são encontrados por aí tão fácil. Torço, do fundo do coração, pra que a Cami só encontre pessoas boas e merecedoras de tanto afeto e dedicação!

E que sou muito grata à vida por ter conhecido essa família tão especial! Com certeza vamos nos ver de novo (várias vezes).

Como a Cami disse, “somos uma grande família”. Mesmo com a distância.

E o Theozão vai se recordar dessa viagem e de vocês pro resto da vida! <3

 

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Vem, Lola, vem!

Assim que recebemos o diagnóstico do Theo, procuramos filmes que abordassem o autismo de alguma forma. E caímos direto em Mary & Max e Adam. Que me desculpe quem gostou, mas achamos os dois extremamente deprimentes, nada legais pra um casal que acabou de saber que o filho é autista, e choramos baldes pensando no futuro negro e sombrio que aguardava o Theo.

Já estava desistindo dos filmes com essa temática quando alguém me sugeriu “After Thomas”. Esse é um filme baseado na história real de uma família com uma criança autista e seu cachorro. Pensei “filme com cachorro, em geral, é leve”. Sim e não.

O filme começa mostrando o dia a dia da família antes do cachorro. O menininho é autista severo e sua mãe passa vários apertos com ele. Nessa parte, eu chorei de novo, me imaginando na mesma situação (o Theo ainda era novinho…tinha só 2 anos). Daí, entra o cachorro…e essa criança começa a aprender a se relacionar, a entender os sentimentos do outro e até a se comunicar melhor. Valeu a pena cada segundo desse filme. Se você não viu, aí vai ele:

Acabei pesquisando mais e descobri que o menino autista do filme, hoje, tem faculdade, é independente, está realmente muito bem. Se você entende inglês, aqui tem uma reportagem legal sobre a família: http://www.dailyrecord.co.uk/news/real-life/scots-mum-tells-how-familys-2365576

E, desde então, a ideia de dar um cachorro pro Theo não saiu da minha cabeça. O problema é que morávamos em um apartamento em SP e um cachorro de índole mais dócil como um labrador ou Golden Retriever ficaria meio “espremido” ali. Deixei o sonho encostadinho e vi o tempo passar.

Agora, estamos em outro país, morando em uma casa com quintal. Já tínhamos decidido procurar o cachorro, mas eu não sabia que o processo aqui era tão complexo.

Cachorro no Reino Unido é coisa muito séria. Estou aqui há 4 meses e já vi raposa, veado, pato, mas NUNCA vi um cachorro abandonado na rua. Muita gente já está colocando microchip nos cães porque, por lei, a partir de 2016, vai ser obrigatório. Assim, fica bem mais difícil alguém abandonar um cão e, se perder, é fácil de achar.

A recomendação de todos com quem falei é unânime: entrar no site do Kennel Club e procurar os criadores credenciados. Que não são muitos…pelo menos não para a raça que eu queria. A demanda é sempre maior que a oferta e, por isso, eles “escolhem” pra quem querem vender.

E lá fui eu escrever um dos emails mais melosos da vida. Basicamente, contei que tenho um filho autista, que vi um filme em que um Golden Retriever ajudava muito um garotinho na mesma situação e descrevi o Theo como ele realmente é: uma criança adorável, esperta, muito carinhosa e amorosa. Pra encerrar, anexei uma foto dele bem lindão e terminei com a frase de impacto: “I’m sure he will love this dog until his last breath” (algo como “tenho certeza de que ele vai amar esse cão até a morte”).

E comecei a receber as respostas: “Adorei seu email, mas todos os meus filhotes já estão reservados”. “Lindo o seu email, mas não tenho nenhum filhote disponível nessa ninhada. Talvez no fim do ano” (o que??? Mas estamos em fevereiro!!!).

Sim…os cães de bons criadores não são usados como encubadora de filhote. São cuidados. Não vão ficar “engravidando” toda hora assim.

Já estava perdendo as esperanças quando recebo um email de uma senhora chamada Debra: “lindo o seu email, fiquei muito tocada. Tenho, sim, um filhote pra você. Você pode me ligar?”. O coração quase saiu pela boca…liguei assim que pude e já fui perguntando quando poderia pegar a cachorrinha e onde era. Daí, ela pôs meus pés no chão: “você precisa vir aqui para conhecer a mãe deles e ver se é esse tipo de temperamento que está procurando. Além disso, gosto de entrevistar os interessados para entender se, realmente, essa vai ser uma boa família para o cachorrinho”.

Olha…já fiz seleção pra estágio, pra trainee de empresa, mas nunca passei por uma seleção pra mãe de cachorro! Ok…mais uma prova de que as coisas por aqui são bem sérias! E lá fomos nós para um passeio na zona rural inglesa, a umas 2 horas de viagem.

Chegando lá, mal descemos do carro e já fomos recepcionados pela mãe das belezuras: a Neetle. Linda, simpática, chegou de mansinho, não pulou em ninguém, mas estava claramente querendo fazer amizade.

Eu e a Neetle

Eu e a Neetle

Ela ficou imediatamente encantada com o Theo. Mas ele estava meio inseguro…primeiro porque nunca se aproximou de um cachorro desse tamanho. Segundo, eu imagino, porque sempre que ele se aproxima de cães desconhecidos na rua a gente grita “NÃÃÃO”!! Acho que ele ficou meio confuso, né?! Como assim agora pode?

E ela respeitou e se afastou. Mas voltava de novo a rodeá-lo a cada 5 minutos. Até que, quando estávamos indo embora, ela se aproximou da porta aberta do carro, onde o Theo estava sentado. Bastou ele fazer contato visual que ela se sentiu convidada e pulou pra dentro do carro.

Theo e Neetle

Theo e Neetle

Chorei muito. Fiquei emocionada por vários motivos: por um sonho que se realizava, por poder achar um cão tão especial e por ver o tato e a sensibilidade dessa mãezinha com uma criança como o Theo. Tudo muito perfeito!

Para terminar, tivemos que escolher a filhotinha…essa foi a parte mais difícil. Parece que você está “escolhendo um filho”, e isso é uma posição bem desconfortável. Ficamos com essa figurinha aí, que vamos chamar de Lola:

Lola

Lola

Vamos buscá-la daqui a 2 semanas. Ela ainda é muito bebê e precisa de mais um tempo com a mãe e os irmãozinhos.

Eu sempre achei que cães faziam milagres com crianças especiais. E a Lola já fez um sem nem saber. Antes de sairmos para a viagem, conversei com o Theo e falei que íamos visitar uns “au-aus” pra escolher um pra ele. Theo ainda é não verbal, mas passou a viagem inteira falando “AU-AU”. :)

Tenho certeza de que muitos outros milagres vêm por aí. Vou fazer questão de documentar tudo. A Lola tem muito o que ensinar pro Theo e vice-versa.

Tivemos a sorte de achar uma mãe como a Neetle, que teve filhotinhos como a Lola. E a Lola vai ter a sorte de conviver com o Theo, uma criança tão especial e carinhosa que, tenho certeza, vai realmente amá-la até a morte.

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