Felicidade e memórias afetivas

Há duas semanas, comecei a tentar algo que me parecia impossível: abolir o adoçante no café, no chá, em tudo o que fosse possível. Já entrei nessa competição com alma de perdedora: tenho plena consciência da formiguinha que sou e de como o sabor docinho me dá conforto.

Em uma das viagens rápidas que fazemos aos fins de semana, paramos em um café. Meu marido, que é meu maior incentivador nesse quesito, colocou no centro da mesa um copo com cappuccino. Só cappuccino. Nada de açúcar ou adoçante. E me desafiou a tentar. Lá fui eu, já de antemão fazendo careta. A primeira coisa que meus lábios tocaram foi a espuminha do leite. Logo em seguida, tudo meio junto e misturado. E, no momento em que senti o gosto do leite com a espuma o café, voltei ao início dos anos 80.

Frutal é o nome da cidadezinha onde meu pai nasceu. Na prática, ele nem nasceu na cidade, mas no sítio onde meus avós moravam. A terra do triângulo mineiro  é vermelha como coloral. Gruda nas roupas e nos sapatos, principalmente das crianças, que sobem em árvores, correm atrás das vacas no pasto, se enfiam no meio do mato, riscam o chão para brincar de amarelinha. E foi ali, entre vacas, morcegos que dormiam no teto do quarto, galinhas, abacaxis e muita comida feita no fogão a lenha que passávamos um bom pedaço das férias da infância.

Nós 4 e nossa infância cheia de terra vermelha e leite de vaca fresco!

Nós 4 e nossa infância cheia de terra vermelha e leite de vaca fresco!

Lembro-me de ser acordada com um aviso de que “o vô estava quase levando as vacas para o pasto”, portanto, “melhor correr pra ainda dar tempo de pegar o leite”. Ah, o leite! Quentinho, saído direto da vaca pro copo! Jamais, naquela época, eu questionaria o quão saudável isso era de fato, mas era uma delícia!

Chegávamos na cozinha, onde minha avó nos dava uma caneca daquelas de alumínio, com um tanto de café açúcar no fundo. E lá íamos nós, calçados em nossos chinelos, para a cerca do curral. Meu avô amarrava o bezerro nas pernas traseiras da vaca e, ali mesmo, tirava jatos de leite direto para dentro das nossas canecas recém preparadas. Subia aquela espuma doce e quente, com um gostinho de café. Nenhum café da manhã em hotel cinco estrelas substituiria aquela situação para a minha pessoa de menos de um metro à época!

Ah, tudo que é bom acaba…eu já sabia. E, para repetir sem ter que voltar à cozinha e reabastecer a caneca de café e açúcar, eu deixava um restinho do que tinha acabado de beber no fundo, devolvia ao meu avô, e lá vinha mais um jato de leite. E esse repeteco tinha gosto de…cappuccino praticamente sem açúcar.

Isso é o que eu chamo de “memória afetiva”. Algum gosto, cheiro ou toque que me lembra de alguma situação que mexeu, de alguma forma, com as minhas emoções. Essa memória afetiva tão gostosa do leite que saía direto da vaca me ajudou a abandonar o adoçante no café com leite.

Algumas memórias afetivas têm gosto de saudade. Se eu fechar bem os olhos, lembro-me perfeitamente do abraço da minha tia Anilda, irmã do meu pai, pessoa tão especial e querida, que faleceu pouco antes do meu casamento. Chegávamos a Frutal, na sua casa de chão vermelho, e éramos recebidos por aquele abraço de urso, tão quente, tão acolhedor. Se eu fechar os olhos, também lembro do sabor do macarrão que a tia Anilda preparava com tanto carinho.

Tenho um arquivo mental com várias gavetas onde guardo minhas memórias afetivas. As que são negativas – como o perfume que usava alguma pessoa que me fez muito mal – deixo nas gavetas mais de baixo, menores, escondidas. Não pretendo acessá-las. Faço o possível para não ter que abri-las.

As gostosas ocupam as gavetas da frente, com destaque, com honra. Pretendo tirá-las do arquivo com frequência, acariciá-las, colocá-las pra tomar sol para que durem bastante.

Enquanto eu acessava a memória afetiva do leite, no Café durante a viagem, olhei para o meu garotinho de olhos grandes e curiosos. Espero, com todas as minhas forças, que todas as experiências às quais temos exposto nosso filho sirvam para encher seus arquivos de muitas, milhares de memórias afetivas gostosas, cheirosas, acolhedoras, inesquecíveis.

Mas, devido à sua sensibilidade diferenciada, com certeza, Theo vai precisar de um arquivo bem maior. É que suas memórias terão muito mais cores, sabores, sons e sensações que as minhas!

 

 

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Dos dias ruins

Anteontem, tivemos um dia de cão com o Theo. Sabe aquele dia em que nada funciona? Foram várias crises, vários episódios de xixi fora do lugar (sendo que ele já não usa fralda desde os 3 anos de idade), e uma agitação totalmente fora do comum. Não conseguimos identificar nenhum gatilho: nada de diferente na rotina, nenhum alimento diferente.

Sorte que meu marido já tinha voltado de viagem. Então, nos revezávamos para tentar colocar o Theo pra dormir em um cenário caótico: super agitado, ele fazia todos os barulhos possíveis, molhava a cama, arremessava a galinha. Quando um sentia que o outro já estava desmoronando, a gente trocava de lugar.

Quando ele finalmente dormiu, estávamos tão cansados que desistimos de jantar, de ver tv, e só queríamos dormir e descansar. O cansaço físico se equiparava ao cansaço mental e psicológico. Senti meu coração em frangalhos nesse dia e chorei como há muito não chorava.

Passou…passou. Acordei 100% no dia seguinte, pronta pra encarar o dia, olhando meu garotinho com ternura, sem aqueles pensamentos negros que povoam a nossa mente nesses dias terríveis.

Já comentei na fan page que acompanho várias séries de TV ao mesmo tempo. E uma das minhas favoritas é “The Walking Dead”. Quem não conhece ou nunca viu, provavelmente acabou de torcer o nariz aí do outro lado da tela.

The Walking Dead. Imagem: http://bit.ly/1LyGYFK

The Walking Dead. Imagem: http://bit.ly/1LyGYFK

Sim, o pano de fundo da série é um apocalipse zumbi. Mas o roteiro é sobre as relações humanas e as mudanças comportamentais que acontecem em pessoas vivendo em situações extremas.

E um dos diálogos de ontem mexeu demais comigo. Tanto que fui atrás do texto e compartilho, agora, com vocês. Todos estão abrigados em um celeiro e o líder da turma, Rick, conta o seguinte caso:

“Quando eu era criança, eu perguntei ao meu avô se ele matou muitos alemães na guerra. Ele não respondeu. Dizia que era conversa de adulto. Então eu perguntei se os alemães tentaram matá-lo, e ele ficou bem quieto. Ele disse que morreu assim que pisou no território inimigo. Todos os dias ele acordava e dizia pra si mesmo: “descanse em paz. Agora, levante-se e vá guerrear”. E, depois de anos fingindo estar morto, ele saiu da guerra vivo. E esse é o truque, eu suponho. Se fizermos o que tem que ser feito, teremos o direito de viver.”

Uau! Sabe quando a mensagem te atinge e você fica anestesiada? Senti como se Rick estivesse falando dos nossos dias terríveis aí. Dias em que nos sentimos mortas: sem perspectivas de futuro, com os sentimentos nublados, com os olhos embaçados. E, nesses dias, por mais que nos sintamos assim, temos que guerrear. Sozinhas, revezando com o marido, mas temos que continuar tentando. E, no final, quando a criança finalmente descansa e dorme, nós também apagamos exaustas, mortas. Mas nos levantamos vivas no dia seguinte. Voltamos a ter esperança, a ver o lado bom, a fazer o dia valer pelo sorriso que recebemos ao acordar nossas crianças pela manhã.

E acordamos vivas pela sensação de que fizemos tudo o que estava ao nosso alcance. Fizemos o que podia e tinha que ser feito como mães do Theo, do Edu, do Caio, do Gui, da Manu. E nos abastecemos de amor nos dias bons justamente para suportar os dias difíceis.

 “Se fizermos o que tem que ser feito, teremos o direito de viver”.

Força, gente! Pra mim, pra vocês, pra todas nós!

<3

 

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Pacotinhos cheios de amor

“Os cães são o nosso elo com o paraíso. Eles não conhecem a maldade, a inveja ou o descontentamento. Sentar-se com um cão ao pé de uma colina numa linda tarde é voltar ao Éden, onde ficar sem fazer nada não era tédio, era paz.” (Milan Kundera)

Um pacotinho cheio de amor

Um pacotinho cheio de amor

O sítio onde Lola nasceu fica a duas horas de carro de Londres, bem no meio de uma zona praticamente rural. Fomos a primeira vez visitá-la para ser entrevistados pela criadora como possíveis compradores. Após a aprovação, combinamos a data para buscá-la de vez.

Duas semanas depois, lá fomos nós. Na volta, acomodei-me no banco de trás com ela e com um rapazinho curioso, mas também receoso com a novidade que se aconchegava a seu lado: uma bolinha de pelo quente que se mexia constantemente, procurando a melhor posição para dormir. Ele evitou tocá-la. Ela ignorou a rejeição. Apaixonou-se por ele desde o primeiro dia. Tentava enfiar-se no vão entre seu cadeirão e o banco para ficar mais junto dele.

A primeira noite de Lola em casa não foi em casa. Às onze da noite, um barulho nos chamou a atenção no andar de cima. Um cano estourou no teto, acima do banheiro, transformando-o em um pântano. A água escorreu sem dó nem piedade e alagou toda a cozinha e a sala no andar de baixo. Sentada na sala molhada, com os pés pra cima do sofá – e com a pequena dormindo ao meu lado – , procurei no Google “pet friendly hotels in London” (hotéis que aceitam animais em Londres). E foi em um deles que passamos nossa primeira noite como uma família composta por quatro “pessoas”.

Theo demorou vários dias para ter coragem de tocar Lola pela primeira vez. Foi quando eu, a mãe aflita, percebi uma alternativa: sugeri que ele a tocasse com o pé. E ele, imediatamente, o fez. Aos poucos, foi perdendo o medo de senti-la, também, com as mãos. Foi curtindo o pelo fofinho e macio. Só não curtiu as mordidas de dentes finíssimos que ela lhe dava com frequência, coisa normal pra um cachorrinho que está na fase de troca. Uma adestradora deu várias dicas e conseguimos, com sucesso, contornar esse problema inicial. As roupas que ela furou? Bem, essas não tiveram conserto mesmo. :)

E já faz um ano que Theo aprendeu a falar “oua”. Ele, o garotinho que só falava “mamã” e “má”. Faz um ano que aprendemos que um cachorro novinho é como um bebê recém chegado da maternidade: você morre de amores, mas também sofre. Você para, às vezes, pra pensar “onde é que eu estava com a cabeça”.

Você acha que não vai dar conta de tudo: da casa, do outro filho, dos xixis no tapete, das mordidas. Você procura por pessoas com a mesma raça na internet e descobre, aliviada, que é normal pensar que não vai dar certo, que tem algo de errado com a energia inesgotável do seu bichinho, e que você comprou o único “Golden Retriever maléfico” do planeta Terra. Assim como com o bebê novinho, todos te dizem “vai passar, isso é uma fase, depois eles se acalmam”.

E todo mundo tem razão. A fase dos dentes passou sem que o Theo criasse rejeição à Lola. Tudo graças às técnicas que eu pesquisei bastante (como encerrar qualquer brincadeira assim que ela mordesse). Se nos comprometermos a educar, o xixi fora de lugar passa mais rápido ainda. E o amor só cresce. O companheirismo floresce.

Lola é uma irmã para o Theo. Como todo irmão, ele briga com ela de vez em quando. É que ela não tem muito desconfiômetro e, quando resolve que quer brincar com ele, não desiste muito fácil. Isso tem forçado o Theo a sair um pouco do casulo e do movimento repetitivo. E tem estimulado nosso garotinho a pensar e bolar estratégias até pra se livrar dela (como eu já o vi fazendo várias vezes, ao jogar longe um brinquedo para que ela vá buscá-lo e saia de perto um pouco).

Lola só trouxe ganhos. Roupas furadas não são nada perto do amor incondicional que ela demonstra por toda a família.

O olhar mais doce do mundo

O olhar mais doce do mundo

Cachorros são seres peludos que transbordam amor. Cachorros são membros da família.

Portanto, se você se empolgou e quer trazer um peludinho pra casa, a primeira coisa que eu te digo é: não se empolgue. Essa decisão é muito séria e muito importante. Pese todos os prós e contras do mundo. Dá trabalho, gasta dinheiro, faz sujeira, tem que educar. Se você não está disposto ou não tem tempo, melhor deixar pra lá. Porque a pior coisa que se pode fazer no mundo é “doar” ou abandonar o cachorro depois dizendo que “não deu certo”. Por favor, POR FAVOR, não compre ou adote um cachorro na empolgação!

Quer mesmo? Tem certeza? Um adestrador pode ser importante, principalmente se você tem uma criança autista. Aprender a lidar com a fase das mordidas é crucial para que seu filho não crie birra ou rejeição com relação ao bichinho.

Não tem condições de contratar um adestrador? Há livros bons, como o Adestramento Inteligente, do Alexandre Rossi, que podem te dar um norte. Na internet também tem muita coisa legal para tirar dúvidas e orientar. Um exemplo é o blog Mãe de Cachorro.

Passou por tudo isso? Aproveite. Ame. Faça carinho, deixe ele se apoiar no seu colo, tire muitas fotos, faça muitos vídeos. Ria e chore com as interações entre ele e seus filhos.

Como diz a frase lá em cima do texto, ficar ao lado de um cachorro olhando a paisagem não é tédio. É paz.

 

P.S: Veja, abaixo, o vídeo com a retrospectiva desse ano!

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Blogagem coletiva: eu stalkeio, tu stalkeias…

“Quem muito abaixa mostra o popô” ~ Anônimo

Internet é um circo. Fato. Veio pra revolucionar a nossa vida, em grande parte, para melhor. Mas todo bônus tem seu ônus. A internet é cheia de gente sem noção e folgada.

Outro dia, comentei na fan page sobre pessoas que roubam imagens com frases que eu fiz, tiram minha assinatura e colocam outra por cima. Ok, isso é chato, mas a gente sobrevive. Bem pior do que isso, foi quando roubaram uma foto do Theo de um post que eu fiz e a usaram em um meme HORROROSO de futebol. Denunciei ao Facebook, várias pessoas fizeram o mesmo, reclamei com os donos da página, mas nada aconteceu. Ela continua lá até hoje.

Imagem: http://bit.ly/1KJAhk1

Imagem: http://bit.ly/1KJAhk1

Isso são exemplos de “infrações leves a moderadas” cometidas por pessoas sem noção ou cara de pau mesmo. Mas existe coisa bem pior que gente sem noção e cara de pau. Existe gente mau caráter, existe quadrilha especializada em roubo de dados pela internet, existe pedófilo, toda aquela corja que a gente quer bem longe. E a gente não se toca de que, uma vez que postamos algo na internet, aquilo pode NUNCA mais sair de lá. Você pode apagar a foto, mas alguém já pode ter salvo. Você pode apagar o post, mas o print foi dado no último segundo antes que você o fizesse.

O objetivo desse post não é deixar ninguém neurótico. É trazer à nossa consciência o fato de que, às vezes, somos ingênuos demais quanto aos perigos da exposição da nossa vida – e dos nossos filhos – no ambiente virtual.

Para exemplificar isso, participei de uma brincadeira puxada pela Milene do Blog da Diiirce. Fizemos um amigo oculto entre blogueiras onde cada uma teria que “stalkear” quem sorteou. No final, a gente entregava um relatório sobre o que conseguiu descobrir da “amiga oculta”.

internet segura

Pra quem não está acostumado ao termo, “stalkear” é procurar informações sobre a pessoa na internet. Jogar o nome no Google pra ver o que aparece, ir no Facebook, no Instagram, e por aí vai.

Devo contar pra vocês: como stalker, eu sou uma ótima jornalista! :D

Não consegui achar grandes coisas da minha colega. As coisas que ela posta publicamente são bem genéricas e nada comprometedoras.

E quem me stalkeou? Bom…o relatório que eu recebi mostrava o que eu já sabia: minha vida pessoal está bem documentada por aqui (e no Facebook, e no Instagram), mas nada comprometedor, com uma exceção: as minhas fotos do Instagram mostravam o local onde foram tiradas. Isso mesmo. Ela sabia o nome da rua onde meus pais moram. Claro que eu corri lá pra corrigir esse “oversharing” do meu Instagram.

E qual a mensagem aqui? Que não vamos ficar neuróticos, mas também não vamos entregar o ouro na mão do bandido, certo?

Então, aqui vão algumas dicas que a gente conseguiu reunir para que você se garanta contra esse tipo de gente:

  1. Restringir as publicações no facebook para amigos. Coloque como público só aquilo realmente genérico!
  2. Postar fotos de eventos ou programas só depois que eles acontecerem. Isso evita que mapeiem onde vc está;
  3. Não dar check in público na escola dos filhos;
  4. Configurar o Facebook para que você tenha que autorizar qualquer marcação do seu nome em fotos ou eventos;
  5. Não colocar fotos dos seus filhos sem roupa (nem se forem bebês…tem louco pra tudo!);
  6. Não colocar fotos do seu filho com o uniforme ou qualquer coisa que identifique o nome da escola
  7. Desabilitar a localização geográfica de fotos do Instagram (porque qualquer um pode ver onde as fotos foram tiradas no mapa de fotos);
  8. Evitar dar detalhes da rotina da família;
  9. Checar se os perfis da sua família próxima nas redes sociais estão protegidos também;
  10. Para nós, que temos filhos autistas: cuidado com o que você posta sobre o seu filho. Pense que ele pode vir a ler no futuro. Pense se ele gostaria de ler o que você postou sobre ele. Pense em que efeito isso terá sobre ele.

A gente nunca sabe as intenções de quem “dá um Google” no nosso nome. A gente nunca sabe, de verdade, quem está do outro lado da tela do computador. Como diria minha avó, “cautela e canja de galinha não fazem mal a ninguém”.

Quer ler o que as minhas colegas blogueiras escreveram sobre o mesmo assunto?

Aqui vai (aos poucos vou adicionando):

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5 segundos de distração e…

Como vocês sabem, meu marido viaja um bocado. Agora, até um pouco menos. Mas, quando vai, muitas vezes, fica uma semana inteira fora. E ficar sozinha com uma criança/autista/hiperativa em casa é para os fortes, néam?! Que o diga quem estava, aí, torcendo pelo fim das férias escolares!

Então, resolvi brincar um pouco. É a coisa do trágico e do cômico. A brincadeira se chama “me distraí por 5 segundos e…”.

Vocês já notaram como essas crianças são rápidas? Gente, é coisa do outro mundo! The Flash perde!

Vou começar aqui. Tenho vários exemplos do que acontece nesse tipo de situação! Depois, a bola vai pra vocês! :D

Me distraí por 5 segundos e…

  • Quando percebi, ele tinha subido em uma cadeira, aberto o armário, pegado uma caixa de biscoito e já estava na metade do pacote.
  • Um copo d’água foi sutilmente despejado no meio da minha cama.
  • Quando olhei, Theo estava com a boca aberta, com cara de riso, e a Lola lambendo até a garganta dele.
  • Quando olhei para o branco de trás do carro, Theo estava comendo a neve que grudou na bota.
  • Ele pegou um pote de sorvete na geladeira e estava comendo com a mão.
  • Ele despejou um vidro de shampoo e um tubo de pasta de dente na banheira.
  • Deu uma baita mordida em uma cebola que eu estava picando.
  • Jogou vários brinquedos na água da Lola.
  • Arremessou um abacaxi descascado inteiro pela janela da cozinha no décimo quinto andar. (!!!)
O triste fim de um abacaxi descascado

O triste fim de um abacaxi descascado

  • Ele pegou um docinho na festa, mordeu, não gostou, e devolveu mordido para a cesta de doces.
  • Ele roubou uma batata frita de uma pessoa no Mac Donalds.
  • Deu uma lambidona no espelho do elevador.
  • Quando morávamos no apartamento em SP, ele fugiu pela porta que estava destrancada, invadiu a casa da vizinha, correu para o quarto dela e começou a pular na cama do casal. Sorte que, aparentemente, não tinha ninguém em casa (apesar da porta estar destrancada) e deu tempo de eu correr com ele de lá!

UFA! Passo a bola pra vocês agora! O que já aconteceu de engraçado por aí quando você se distraiu por 5 segundos? :D

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Saúde na Inglaterra e na Suécia

Muita gente me pergunta como é o sistema de saúde na Suécia. Não é muito diferente do da Inglaterra. E é bem diferente do Brasil. Vou explicar um pouco disso nesse post. Lembrando que esta é a minha experiência, ok?! :)

1) O sistema de saúde no Reino Unido e na Suécia é praticamente todo público.

Ninguém aqui paga plano de saúde pra ter direito a um hospital particular, melhor e com menos fila. Isso não existe. Está doente, vai para o PS do hospital público. E com fila, viu?! Naquela vez em que o Theo queimou a testa em Londres, esperamos mais de 3 horas para sermos atendidos.

Theo e o acidente com água quente no final de 2013. O maior susto da minha vida!

Theo e o acidente com água quente no final de 2013. O maior susto da minha vida!

2) Remédio, principalmente antibiótico, só em ultimíssimo caso.

Em Londres, estive no hospital com o Theo quase vomitando as tripas, tadinho. Já não tinha nada no estômago pra sair. Esperamos um bom tempo pelo atendimento e, quando ele finalmente aconteceu, ouvi do médico que eles não dão remédio para parar vômito. “O QUEEEEEEE?”, perguntou a mãe aqui, já acostumada a chegar no hospital particular do Brasil e ver o filho tomar um Vonau. “Mas e se ele desidratar???”. A resposta: “se ele desidratar, tratamos a desidratação”.

O ponto 2 está relacionado ao ponto 1. Já explico. Como o sistema de saúde no Brasil foi, em grande parte, “privatizado”, a solução acaba sendo focada na pessoa e não no todo. Muitas vezes, o médico pode passar o antibiótico porque sabe que é isso que o paciente espera e que vai resolver o problema com mais rapidez. Aqui, estamos falando de saúde pública de verdade, com visão de longo prazo. Os médicos têm uma real preocupação com o surgimento de bactérias resistentes a antibióticos, que podem ameaçar a saúde da população em geral. Por isso, antibiótico é, realmente, controlado.

Além disso, aqui na Suécia, o sistema de saúde prega que o organismo precisa aprender a reagir a certas bactérias e vírus para não sucumbir a eles novamente. Portanto, um pouco de febre é natural e não deve ser motivo para correr para o hospital (mais uma coisa que nós, com plano de saúde no Brasil, fazemos sem pensar 2 vezes). Só leve seu filho ao PS daqui após 2 dias de febre de, pelo menos, 39 graus. Menos que isso, vai levar um sabão do médico! Eles dizem que “hospital é para doença de verdade”. Para casos de febre, vômito, diarréia, ou qualquer outra coisa que eles consideram menos séria, há um “0800” para onde a gente liga e é orientado sobre o que fazer. O mesmo acontecia em Londres.

Para ilustrar a mentalidade, outro caso: logo que nos mudamos pra cá, Theo tomou as vacinas DPT e Salk na escola. O local onde foi aplicado inflamou e inchou, ficando até meio quentinho. Lembramos que ele teve uma reação parecida com outra vacina quando era mais novo, e a pediatra, na época, receitou antibiótico. Pois bem. Óbvio que corremos pro PS. Leandro desceu na frente pra ver se era ali mesmo e, em menos de 10 minutos, voltou. Nem deixaram o Theo descer do carro. “É assim mesmo, esse tipo de reação no braço é comum”. Mandaram manter o local ventilado e nos deram um tchau. Passei Nebacetin no bracinho dele e, no dia seguinte, já estava melhor. Será que, realmente, ele precisava ter tomado aquele antibiótico anos atrás?

3) O atendimento diferenciado em casos específicos tem sido muito bom.

Sim, o Theo ficou mais de 3 horas esperando pra ser atendido quando se queimou. Mas já saímos de lá com uma consulta marcada no dia seguinte, em um mega hospital mais próximo do centro, onde havia uma “ala pediátrica para queimados”. Atendimento de primeira, na hora marcada, com o maior cuidado do mundo.

Também sinto um cuidado muito grande com as crianças. Em Londres, fomos avisados de que ele tinha dentista marcada. E era dentista focada em pacientes especiais.

Aqui, Theo foi atendido logo no início pela pediatra da escola. Ela deu as vacinas que faltavam e nos direcionou ao dentista e, também, ao oftalmo. A gente recebe uma cartinha em casa avisando do dia e do horário para comparecer. Simples assim.

Theo em sua primeira consulta ao oftalmo na Suécia

Theo em sua primeira consulta no oftalmo na Suécia

Para terminar, a criança com deficiência tem direito a usar os serviços do Habilitering de sua região. O Habilitering é como se fosse o “CAPS”. Tivemos uma primeira reunião lá, com direito a intérprete falando em português, para falarmos do Theo e de suas necessidades. Logo depois, recebemos uma carta chamando para uma avaliação com a fisioterapeuta. E, agora, veio uma carta chamando para a avaliação com a Terapeuta Ocupacional.

Os Habiliterings têm um time formado por Terapeuta Ocupacional, Fono, Psicóloga, Fisioterapeuta e Pedagoga. São elas que vão providenciar, após a análise, todo o suporte que o Theo precisa em termos de terapias.

Conclusão

É difícil a gente se desapegar da mentalidade “tenho plano de saúde, então vou correr no hospital porque tá tudo coberto mesmo”. É difícil perder o impulso de correr com a criança para o PS na primeira febre. Mas é um exercício interessante.

Esta semana, Theo esteve bem gripado. Muito catarro, tosse, alguma febre (não alta) por dois ou três dias. Não fomos ao PS e seguimos a orientação, já que a febre não chegou nem perto de 39. E não é que ele está melhor? Aparentemente, o organismo reagiu sozinho.

Nada é perfeito. Tem horas em que eu adoraria poder correr para um hospital particular, quase sem fila, e ser atendida por alguém que quer resolver meu problema ali, na lata. Mas todo o suporte que o Theo tem tido no caso do autismo é coisa de outro mundo. Inacreditável, de verdade. Então, acredito que o conjunto da obra vale muito a pena!

Para encerrar, imagino vocês pensando “nossa, isso tudo de graça!!!”. Não, gente. Não é de graça mesmo. Meu marido resume bem: ele trabalha praticamente de janeiro a julho só pra pagar isso. 50% de impostos é coisa pra caramba! Mas a gente, pelo menos, vê o imposto ser revertido em nosso benefício.

O Brasil ainda tem um longo caminho a percorrer, mas nada acontece se ninguém se mobilizar pra cobrar uma melhor aplicação dos impostos, certo?!

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10 coisas que sua esposa gostaria que você soubesse

Recebo muitos emails e mensagens semanalmente. Neles, as pessoas – mulheres, na maioria – abrem seu coração e falam da vida, do autismo e até do casamento.

Sabemos que a vida a dois já não é fácil em situações normais. Com uma situação extra de pressão, como o diagnóstico de um filho com autismo, se a fundação não estiver sólida, a coisa pode desmoronar.

Vejam bem: não estou nem jamais irei colocar a culpa do fim de um casamento em uma criança autista! O que estou dizendo é que, se o casamento já não ia bem, qualquer situação de stress excessivo e que exacerbe os ânimos pode complicar ainda mais o cenário.

O fato é que homens e mulheres processam as emoções de formas diferentes. O cérebro de ambos também funciona de formas distintas.

Eu, no dia do meu casamento, quando jamais passou pela minha cabeça que eu teria um Theozão, uma Lola e moraria na Suécia!

Eu, no dia do meu casamento, quando jamais passou pela minha cabeça que eu teria um Theozão, uma Lola e moraria na Suécia!

Como mulher, posso falar com um pouco mais de propriedade sobre como lidamos com essa montanha russa. O que eu tenho aprendido sobre a forma como os homens lidam com esse tipo de situação vem, basicamente, dos emails e mensagens que eu recebo.

E, foi juntando um pouco de cada email que eu recebi, que resolvi fazer essa lista. Se você é pai de uma criança com necessidades especiais, essas são as 10 coisas que a sua esposa ou companheira gostaria que você soubesse!

Se você, pai, acha que nada disso tem a ver com o que se passa no seu casamento, apenas desconsidere. Lembre que estou usando como base os depoimentos que eu recebo, ok?! :)

1. Eu entendo que você tem mais dificuldades que eu para lidar com algumas situações específicas. E eu aprendi que não devo forçar uma mudança em você nesse sentido. Cada pessoa tem os seus limites. Se você não aguentar, pode deixar que eu aguento. Da mesma forma, espero poder contar com você nos meus momentos de fraqueza, por mais que pareça que eu sou forte 100% do tempo. Ninguém é forte 100% do tempo.

2. Nós 2 sofremos. Nós 2 tivemos que revisitar os sonhos ao passar pelo luto do filho idealizado. Eu saí do luto há algum tempo. Se você ainda não conseguiu sair, você precisa estender a mão e pedir por ajuda. Por nós e pelo nosso filho. Isso não é sinal de fraqueza. É sinal de que você quer estar bem pela sua família!

3. Entenda que muitas coisas que o nosso filho faz não são por mal. Eu sei que ele não ignora as suas ordens ou comandos porque é desobediente. Ele é autista! Nosso filho tem um sistema sensorial tão alterado que ele vai continuar fazendo sons irritantes, por mais que você o peça para parar, simplesmente porque o cérebro dele não o deixa parar. Sabe aquele impulso que é mais forte que você? É exatamente isso que acontece!

4. Ao mesmo tempo, preciso de você ao meu lado acreditando que as coisas vão melhorar. Não sofrendo, diariamente, pelo que o nosso filho não é, mas celebrando cada pequena conquista. Porque elas vêm! Podem não vir na velocidade que você espera, mas virão.

5. Nosso filho te ama. Quer te agradar. Te vê como um porto seguro. Seja esse porto seguro. Seja a pessoa que mais acredita nele no mundo! E ele vai corresponder à altura.

6. Por mais chateado ou estressado que esteja, nunca, jamais fale do nosso filho como se ele não estivesse ali. Principalmente se a mensagem é algo que possa machucar sua autoestima já tão prejudicada. Tente esquecer as frases “ele não pode” e “ele não consegue”, pelos menos na frente dele.

7. Algumas vezes, eu vou chorar. Quando não conseguir mais suportar alguma situação, quando a dor ficar forte ao ponto de transbordar, é pelas minhas lágrimas que você vai saber. Nessa hora, não espero um conselho, muito menos uma solução. Espero colo. Espero alguém que me diga que tudo vai ficar bem, mesmo sem ter essa certeza.

8. Nada disso foi sua culpa. NADA FOI SUA CULPA.

9. Se você não estiver bem o suficiente para falar comigo a respeito, pelo menos entenda a rede que formei ao meu redor para que eu possa trocar experiências e desabafar. Os grupos virtuais e os amigos na mesma situação são grande parte do alicerce que me ajuda a passar por tudo isso com mais leveza.

10. Sei que a nossa vida e o nosso casamento não tomaram o rumo que você esperava ou que você gostaria. Mas a vida não acabou! Ela só é diferente do que imaginávamos! E cabe a nós procurar a beleza em meio ao caos, porque ela está lá. A vida é como a imaginamos e a experimentamos. Há sempre uma luz no fim do túnel!

 

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