Guest post: o que aprendi no Pupanique

Recebi, hoje, essa mensagem muito especial sobre a experiência de um casal de estudantes, que não possuem ninguém autista na família, no Pupanique. Reproduzo, aqui, com a autorização dela, porque quero que vocês se emocionem como eu! <3

 

“Andrea, queria te mandar uma mensagem sobre o que eu senti no Pupanique, sendo alguém que nunca tinha tido contato com o autismo. Queria falar sobre tudo que passou na minha cabeça, dividir isso com você.

Você já deve ter recebido diversas mensagens sobre o Pupanique. Pessoas contando suas experiências, falando de como os seus filhos se divertiram, expondo seus sentimentos e te agradecendo por você ter proporcionado isso. Esse é, então, apenas mais um agradecimento, apenas mais uma história sobre o mesmo dia.

Cheguei lá acompanhada pelo meu namorado. Nós estávamos com um friozinho na barriga que quase nos fez desistir, não sabíamos o que nos esperava ali, não sabíamos nem se deveríamos de fato estar ali. Porque o que todas aquelas pessoas tinham em comum, nós nunca tínhamos passado perto, e estávamos nos aproximando disso, não sabíamos o que encontraríamos, não sabíamos como lidar e muito menos o que dizer. Ficamos ao longe apenas percebendo, aprendendo pela observação. Nós nunca tínhamos estado com alguma pessoa autista. Eu pensei e nem sequer conseguia chegar a uma definição do que era o autismo, nem mesmo juntando tudo que já li a respeito, todas as pesquisas, seu blog e outros que leio, não conseguia naquele momento bolar uma resposta.

Fomos em frente. Não porque nos sentimos preparados, mas porque era a hora. Te cumprimentamos, oferecemos ajuda, e começamos a conversar com as pessoas que estavam ao redor (tanto mães quando crianças). “De onde vocês são?” “Vocês têm algum parente autista?” “O que trouxe vocês até aqui?”. Respondíamos as duas primeiras perguntas com facilidade, mas a terceira…

Bom, em 2012, uma grande amiga minha ganhou um irmãozinho com Síndrome de Down, e eu, que sempre fui apaixonada por criança, me tornei mais próxima ainda da família e passei a ver de perto todas as dificuldades e todo o encanto que há por traz de ter uma criança com necessidades especiais. O tempo foi passando, ele foi crescendo e se mostrando cada vez mais especial, e foi se desenvolvendo em seu tempo. Quando me dei conta, estava no meio do terceiro colegial e tinha acabado de mudar minha escolha profissional de arquitetura para pedagogia, com um interesse enorme pela educação especial. Comecei a pesquisar muito sobre diversos transtornos e o autismo me chamou muita atenção. Fiquei apavorada de como o mundo não está preparado para isso, como falta preparo de profissionais, como a grande maioria das pessoas não sabe lidar. E eu não sabia lidar também e comecei a querer saber: fui atrás de alguns livros, filmes e, aí, meu namorado me mandou o link do seu blog.

Eu achei, num primeiro momento, que estava descobrindo um mundo novo, caindo no pensamento da sociedade de que “os autistas vivem em outro mundo”. Via os textos e vídeos sobre o Theo e aquele pensamento de “como deve ser difícil” mudou para “como será que posso ajudar”.

Quando cheguei ao Pupanique, era isso que eu queria: aprender como ajudar. Mas acabei aprendendo muito mais. Muito, muito mais. Sai de lá transbordando. As crianças, lindas! A energia estava fantástica, me sentia numa bolha de energia positiva no meio desse caos que São Paulo está. Senti como é importante a inclusão, como um tem o que aprender com o outro. Não tinha palavras para dizer o que sentia, me sentia mais próxima da minha profissão, senti que eu posso aprender a ajudar, senti clareza que é com isso que quero trabalhar pro resto da minha vida: com crianças.

Aprendi, nesse dia, que os autistas não vivem no mundo deles. O mundo é um só, estamos todos aqui. Eles compreendem o mundo de outra forma, apenas. Assim como um médico e um pedagogo olham a mesma criança com olhares diferentes. Aprendi muito mesmo! Até mesmo a risada do seu filho me ensinou. E que risada gostosa que ele tem! Brincávamos na gangorra e, pelo menos três vezes, ele disse “more” (mais). Isso preenche, emociona, pois sei, pelos seus textos, o quão gratificante é vê-lo falar “more”. E, quando saí da gangorra, fui até ele perguntar se ele tinha gostado da brincadeira. E ele riu, riu muito. Meu namorado pegou esse momento, de nós dois rindo.

Verônica e Theo (arquivo pessoal)

Verônica e Theo (arquivo pessoal)

O fato da foto estar tremida a torna mais gostosa ainda. Me desculpa, Andrea, por ter falado muito sobre mim, mas eu queria passar o quanto esse dia foi realmente importante para mim, e queria que você entendesse o que uma menina de 18 anos e seu namorado, que nunca tinham visto um autista, estavam fazendo ali.

E, sabe, dentre todas as coisas que eu aprendi nesse dia, a mais maravilhosa foi que essas crianças têm MUITO a nos ensinar. Sou realmente muito grata por essa oportunidade e admiro muito a sua coragem de lutar por um mundo com mais compreensão, sem preconceitos e uma sociedade mais inclusiva. Eu espero que, como futura pedagoga, eu consiga colaborar com essa luta. Um grande abraço em você e um no Theo!

 

Verônica Pires”

No balanço! (arquivo pessoal)

No balanço! (arquivo pessoal)

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Pupanique: lugar de autista é em todo lugar

Muita criança bonita brincando. Pais conversando alegremente. Assim foram os nossos Pupaniques de BH e SP, que aconteceram dias 2 e 9 de agosto respectivamente.

O Parque Marcos Mazzoni, em Belo Horizonte, ficou pequeno pra tanta gente. Nossos meninos e meninas dominaram o playground, se penduraram nos brinquedos, correram muito, brincaram de bola. Crianças de todos os tipos e cores. Uma composição plural como é nosso mundo e como devia ser nossa sociedade, sem a segregação que, muitas vezes, acontece, seja pela cor, pela condição sócioeconômica ou por diferenças variadas. O parque é de todos, e isso ficou perfeitamente retratado no dia 2 de Agosto.

Ao todo, mais de 150 adultos e crianças brincaram, se divertiram e se conheceram melhor naquele dia.

Bruno! (Foto: Julia Baêta)

Bruno! (Foto: Julia Baêta)

Nossa galera feliz! (Foto: Julia Baêta)

Nossa galera feliz! (Foto: Julia Baêta)

Crianças brincando (Foto: Julia Baêta)

Crianças brincando (Foto: Julia Baêta)

O cantinho da música (Foto: Julia Baêta)

O cantinho da música (Foto: Julia Baêta)

Em São Paulo, no dia 9 de Agosto, não foi muito diferente. Muita gente veio de fora da capital, viajando algumas horas para se juntar ao piquenique. A empolgação e a alegria eram visíveis nos rostos de adultos e crianças. Mais de 350 pessoas! Enquanto os pais e responsáveis papeavam, as crianças se acabavam nos brinquedos e nas guloseimas. Muita gente que já era amiga virtual se conheceu pessoalmente nesse dia. Foram momentos muito especiais, e quem passava ao longe podia perceber isso.

Foto: Luis Beraldo

Foto: Luis Beraldo

Muita criança fofa (foto: Luis Beraldo)

Muita criança fofa (foto: Luis Beraldo)

Nossa turma enooooorme! (foto: Luis Beraldo)

Nossa turma enooooorme! (foto: Luis Beraldo)

O melhor abraço triplo do mundo! (foto: Dunia Acauan)

O melhor abraço triplo do mundo! (foto: Dunia Acauan)

A doce e linda Helena! (foto: Dunia Acauan)

A doce e linda Helena! (foto: Dunia Acauan)

Muito amor (foto: Dunia Acauan)

Muito amor (foto: Dunia Acauan)

Crianças felizes! (foto: Dunia Acauan)

Crianças felizes! (foto: Dunia Acauan)

E, dentre as várias mensagens que eu recebi de quem foi aos eventos, uma, em particular, me emocionou. “Gostaria que soubesse que eu e meu marido amamos estar ali, com todos, choramos quietinhos de felicidade, não temos dúvida alguma que somos abençoados por poder viver isso, muito muito obrigada”.

Ver os filhos sendo acolhidos, sem olhares tortos, de reprovação, sem sentir que “não devia estar ali”. É isso que a gente queria, e conseguimos!

No final das contas, acho que todos entenderam que lugar de autista não é em casa…é em todo lugar! É onde ele se sentir bem! Lugar de criança é lugar de autista (e de criança com síndrome de down, paralisia cerebral…), e não tinha porque ser diferente.

Vamos continuar lutando por uma sociedade sem barreiras, sem segregações, cada vez mais inclusiva. O Pupanique foi a prova de que isso é possível! Que essa iniciativa se multiplique por todo o Brasil!

Não dá pra encerrar esse post sem agradecer aos inúmeros parceiros que doaram seu tempo, mercadorias ou serviços, e que fizeram a alegria de muitas mães e de muitas crianças também! Descobri muita gente boa e solidária com esse encontro!

Aqui vão todos eles. Meu muito obrigada, de coração!

Pessoas físicas que doaram ou SE doaram pra que isso tudo acontecesse: Sylvia Shu, Renata Vieira, Ana Fantoni, Paula Cardoso, Jaqueline Geissinger, Márcia Corrêa, Denise Miranda, Ana Luiza Martinez Masi, Adriana Engelmeyer Bouzan, Flávia Miranda, Nicolas Brito Sales.

E, não posso me esquecer NUNCA da equipe de apoio enorme, tanto em BH quando em SP, que me ajudou carregando coisas, etiquetando as pessoas, distribuindo senhas e checando se tudo estava nos conformes.

Pra encerrar, pai, Rosa, Décio, Karina e Marcos, muito obrigada por ajudarem com o Theozão e com todo o resto durante os piqueniques! Amo vocês! <3

P.S: Quer ver TODAS as fotos?? Aqui vão os links:

Pupanique BH by Julia Baêta

Pupanique SP by Dunia Acauan

Pupanique SP by Luis Beraldo

 

 

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Desculpe, ele é autista

Para a moça da piscina do playground,

Desde que o Theo foi diagnosticado com autismo, aos 2 anos de idade, já houve vários olhares tortos. Já houve cochichos. Já houve alguma incompreensão. Mas nada supera a sua falta de humanidade.

Estou falando de você: a moça que estava na piscina infantil do parquinho com seus dois filhos pequenos. Um aparentava ter, no máximo, uns 10 meses. O outro já devia ter quase 2 anos.

Você, que gritou para o meu filho algo como “você não pode correr assim”, quando ele passou feliz e sorridente brincando de chutar a água ao seu lado. Foi pra você que eu gritei “ELE É AUTISTA”. E você retrucou “ele é autista?”.

Theo se divertindo na piscina sem ter a menor noção do turbilhão que acontecia ao seu redor

Theo se divertindo na piscina sem ter a menor noção do turbilhão que acontecia ao seu redor

Nesses quatro anos de diagnóstico, as histórias sempre paravam por aí. Theo fazia algo incomum. Alguém fazia cara de poucos amigos. E eu entrava botando panos quentes. “Desculpe, ele é autista”. Ou, recentemente, desde que me mudei pra Londres, “I’m sorry, he is autistic”. E as pessoas entendem. Ou, ao menos, fingem entender. E se desarmam. Mas isso não aconteceu com você.

Mesmo após ter ouvido que ele era autista, você continuou gritando com ele. “Não faça assim! Ei, você não pode correr assim!”. E, em um determinado momento, você gritou comigo! Foi algo como “você precisa falar com ele pra não correr assim!”. E  eu gritei de volta pra você. Pela primeira vez na vida, eu gritei com uma pessoa por causa do meu filho. Aquilo me soava tão inacreditável que eu devolvi um “eu estou falando com ele pra não correr, mas eu já te disse que ele é autista, você deveria ser mais compreensiva!”. A que ponto chegamos? Eu tive que dizer a uma pessoa adulta que ela deveria ser mais compreensiva com uma criança autista que brincava feliz na piscina?

Sim, meu filho empurrou seu bebê uma vez. Ele faz isso quando está tentando interagir. Ninguém se feriu. Aliás, ele fez isso com várias outras crianças e elas não se importaram. Todas levaram na esportiva. Nem seu bebê pareceu ligar muito. A única pessoa visivelmente incomodada naquela piscina era você.

Sim, meu filho chutou água no rostinho do seu bebê. Ele não foi o único. Várias crianças da mesma faixa etária dele brincavam na piscina. Todas faziam bagunça. Você era a única pessoa adulta com um bebê de 10 meses em uma piscina cheia de crianças maiores e agitadas, jogando água para todos os lados. Mas você só implicou com o meu filho!

E o cúmulo da situação foi quando vi meu filho chegar perto do seu bebê. Devagar…interessado em tocá-lo, em tentar algum tipo de interação. E você, do alto de sua ignorância, afastou o Theo com a mão e disse “não fique tão perto”. Nesse momento, mais uma vez, eu não me contive e gritei “NÃO É CONTAGIOSO!”.

As pessoas ao redor notaram e comentaram. A solidariedade que você não demonstrou na piscina jorrou ao meu redor do lado de fora.

Já me senti desconfortável no avião quando o Theo chutava a cadeira da frente e eu tinha que me explicar para um passageiro visivelmente irritado. Já me senti envergonhada por ele gritar em locais silenciosos e assustar algum desprevenido. Mas, hoje, eu me senti em pedaços. Porque senti meu filho ser humilhado por uma pessoa dura, sem compaixão, sem humanidade e sem amor ao próximo. Essa pessoa é você!

Foi horrível ter que fingir, para a amiga que estava comigo, que esse tipo de situação é corriqueira e não me afeta. Foi horrível segurar as lágrimas. Mas eu não iria fazer o que você queria: eu não iria tirar meu filho de uma piscina que ele tem todo o direito de frequentar e onde estava se divertindo com as outras crianças. Eu não iria deixar você mais confortável. Meu filho tem tanto direito ao espaço público como qualquer criança, e não é uma pessoa como você que vai tirar isso dele.

Para terminar, agora, que já se passaram algumas horas desde o ocorrido, queria te agradecer. Isso mesmo. Queria agradecer pelo aprendizado de hoje. Eu nunca, NUNCA MAIS vou dizer “desculpe, ele é autista”. Ou, na versão daqui, “I’m sorry, he is autistic” (sinto muito, ele é autista). Eu não tenho que pedir desculpas. Eu não tenho que sentir muito. Meu filho é autista. Ele é, também, a pessoa mais amorosa e engraçada que eu conheço. Ele encanta as pessoas ao redor e as cativa de uma forma que você jamais vai entender.

Eu sinto muito pelos SEUS filhos. Pelo tipo de criação que estão tendo. Pelo medo da diferença que está sendo colocado naquelas pequenas cabecinhas aos poucos. Pela falta de amor ao próximo que lhes está sendo ensinada no dia a dia.

Sinto muito por você. Pelo seu coração endurecido. Pela sua visão limitada de mundo.

Sinto muito pela forma como a vida ainda vai te ensinar. Porque ela vai, mais cedo ou mais tarde.

E, por fim, pensando em todas as pessoas que me apoiaram naquele playground, te agradeço por me mostrar que os bons ainda são maioria. Que você foi só uma nuvem negra que apareceu no nosso dia ensolarado, mas foi logo empurrada pra longe pelo vento. E o dia voltou a ficar lindo, iluminado pelo sorriso de uma criança completamente inocente, que não fazia ideia do que estava acontecendo ao seu redor.

 

Andréa.

 

p.s: um beijo especial para a minha amiga Andréa Papini que, de tão solidária a mim nesse momento, estava quase indo dar uma voadora na pessoa!

 

 

 

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Abrindo os olhos

“I want so much to open your eyes
‘Cause I need you to look into mine

Tell me that you’ll open your eyes

Take my hand, knot your fingers through mine
And we’ll walk from this dark room for the last time”

~ Snow Patrol

Theo 2 anos

Lembro-me perfeitamente da primeira vez em saímos com o Theo após o diagnóstico de autismo. Ele tinha quase dois aninhos…era mais um bebê que uma criança. Barrigudinho, rechonchudo, com aquelas bochechas que dá vontade de morder.

Fomos à Festa Junina da escolinha em uma fazendinha onde havia galinhas, coelhos, porcos, cabras, pôneis, patos e vacas. Todas as crianças enlouqueciam com os bichinhos, alimentavam as galinhas, pegavam os coelhinhos felpudos no colo…e o Theo só queria saber de correr de um lado para o outro no gramado.

Tentamos de tudo para que ele percebesse a presença daqueles animais. Mas ele, simplesmente, nem olhava. Não compartilhava. Se apontávamos para um coelho, ele virava o rosto para o lado oposto.

Exaustos física e emocionalmente, saímos de lá mais cedo e fomos pra casa. Lembro-me perfeitamente da crise de choro que tive no caminho. A ferida estava ali, aberta há poucos dias, latejando, sangrando.

Meu garotinho, quando teve o diagnóstico, enquadrava-se bem no chavão “vive em seu próprio mundo”. O bebê sorridente tinha virado uma criança séria, que passava horas de rosto no chão observando as rodas do carrinho. Parecia não perceber a vida acontecendo à sua volta. Estava totalmente fechado em seu mundo de rodinhas e dvds. Tirá-lo dali – ou, ao menos, fazê-lo perceber que havia mais coisas a descobrir, saborear e explorar – parecia impossível.

E, aos poucos, fui conhecendo outras mães. Mesmas dores, mesmos sentimentos, filhos diferentes, alguns já mais velhos. E comecei a ouvir algumas frases com uma certa frequência. “Eles melhoram! Você vai se espantar de como eles vão melhorando! Se você visse o meu filho na época do diagnóstico não acreditaria!”. Fui guardando tudo isso no coração.

Quatro anos se passaram. Moramos em Londres, uma cidade com 45% de área verde. Um dos passeios favoritos do Theo é quando eu o pego na escola e, ao invés de fazer o caminho mais curto, faço o mais longo passando por dentro do Richmond Park, que fica perto de casa. Desde que nos mudamos pra cá, comecei a fazer isso e ia explicando pra ele: “nós vamos passar dentro do parque para ver os veadinhos”. No início, ele não dava muita bola.

Ontem, ao fazer o mesmo trajeto, vi nitidamente a mudança que aconteceu de uns tempos pra cá. Parei ao lado de uma manada de veados, abri o vidro, apontei e disse: “olha, Theo, quanto veadinho! Eles estão perto do carro, olha!”. E o garotinho no banco de trás virou a cabeça, olhou, sorriu muito e quase se jogou pra fora do carro!

Os veados do Richmond Park em foto tirada ontem, da janela do carro

Os veados do Richmond Park em foto tirada ontem, da janela do carro

E, mais para a frente, algo difícil de visualizar pela posição em que o Theo se encontrava no carro: um coelho. Resolvi arriscar. “Olha, Theo, um coelho!”. E comecei a cantar a música do coelhinho. Theo se levantou do cadeirão, esticando o cinto de segurança, olhou pra fora e riu, riu muito, vendo o assustado coelhinho.

coelho parque

O coelhinho que atraiu a atenção do Theo

Mais à frente, outro bando de veados. Bati no vidro ao lado direito e Theo virou imediatamente a cabeça para olhar. Fomos pra casa. Uma mãe feliz sorria no banco da frente enquanto dirigia.

Uma das coisas que eu mais aprendi a admirar morando em um país que possui, de fato, as quatro estações, é a sincronia perfeita da natureza. Quando nos mudamos para cá, era outono. O chão estava coberto de folhas marrons e douradas. As árvores balançavam-se com o vento esticando seus galhos nus. O inverno veio, sem neve, apenas com uma fina camada de gelo que cobria os gramados verdes pela manhã. Aos poucos, o gelo foi sumindo e os gramados verdes foram adquirindo uma cor mais intensa. Até que a primavera chegou. E, subitamente, como em uma sinfonia, os patos deram filhotes, os coelhos também, e pequenas margaridas brancas brotaram em meio à grama verdinha.

A primeira vez em que vi a grama cheia de pontinhos brancos, fiquei realmente espantada. Onde estavam essas margaridas nos últimos 8 meses? Definitivamente, ninguém foi aos gramados e as plantou da noite para o dia. O mesmo aconteceu com várias outras flores, que surgiram como mágica, colorindo os gramados e alegrando a paisagem.

A verdade é que a margarida sempre esteve ali, encubadinha, escondida sob a terra, nutrindo-se das folhas que caíam no outono e da chuva que molhou a terra no inverno. Ela estava esperando somente a época certa para brotar. A época mais favorável.

Assim, também, são as habilidades dos nossos filhos. Em algumas épocas, tudo parece estar bloqueado e sufocado pelas folhas marrons. Depois, vem o gelo. Com a chuva, já conseguimos ver um gramado mais verde. E, quando menos esperamos, as margaridas e as flores de todos os tipos surgem para nos alegrar. Basta ter paciência. Basta acreditar e esperar.

Já faz alguns anos que posso dizer que o Theo voltou a sorrir.

A melhor gargalhada do mundo

A melhor gargalhada do mundo

E, hoje em dia, posso dizer que, com certeza, meu garotinho abriu os olhos para o mundo ao redor!

 

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Vem pro Pupanique!

Tudo começou com um post na fan page, totalmente despretensioso. “Se eu marcasse um encontro em BH e SP com as seguidoras do blog, quem iria?”. E foram surgindo vários “eu”, “EU”, e até uns “mas por que não no RJ”? :)

O papo continuou e a sugestão mais frequente foi fazermos um piquenique em algum parque. Assim, cada uma levava o que comer, ninguém tinha grandes gastos e dava pra levar as crianças. E foi assim que surgiu o Pupanique!

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Daí, coloquei os eventos no Facebook e muita gente confirmou presença. Resolvi que poderia ser legal arrumar uns parceiros pra sortear uns “agradinhos” pra essas pessoas tão especiais: a maioria são mães que, muitas vezes, não têm tempo nem dinheiro pra se cuidar. Todos os recursos estão focados nos filhos… e os parceiros foram aparecendo! Faço questão de agradecer a cada um deles aqui no blog assim que fecharmos tudo!

E muito mais gente foi confirmando, até que chegamos ao ponto em que estamos hoje: 149 confirmados em BH e 333 em SP (isso, sem contar com as crianças!!!)

Uau! Acho que chegou a hora de colocarmos um pouco de ordem na casa, né?! Então, vamos lá.
Pra que tudo corra bem, temos que deixar claras 5 regrinhas:

1) Cada um é responsável pelo(s) filho(s). Parece besteira falar isso, mas NUNCA tire o olho do seu pequeno. Ainda mais em um local como o Ibirapuera, onde há lagos pra todo lugar;

2) Cada um é responsável por levar o lanche que vai consumir junto com o(s) filho(s);

3) Esse é muito importante: cada um é responsável por recolher seu próprio lixo! (Lembrem-se do exemplo dos japoneses na Copa) :)

4) O pupanique é um encontro TOTALMENTE GRATUITO.

5) Os parques são públicos e entra quem quiser. No entanto, gostaria de deixar claro que eu não tenho absolutamente NADA a ver com eventuais distribuições de santinhos e tentativas de venda do que quer que seja. Infelizmente, algumas pessoas podem tentar se aproveitar da situação para lucrar. Façam um favor pra mim e mandem essas oferendas de volta pro mar! :)

Tendo isso em mente, o resto já vai funcionar bem melhor!

Outra coisa importante é sobre os sorteios. Quando eu digo “agradinhos”, são “agradinhos” mesmo. Eu não sou o Caminhão do Faustão, gente! E nem é o objetivo principal do encontro sair distribuindo nada! :)

Todos que chegarem ao pupanique devem procurar por alguém da equipe de apoio para ganhar uma etiqueta com o nome e, no caso das mulheres*, receber uma senha para o sorteio. Às 16horas, o sorteio vai ser realizado no local. Se a sortuda não aparecer no momento do sorteio para retirar seu brinde ou voucher, a gente sorteia outro número. 

*É importante ressaltar que só as mulheres poderão participar do sorteio. Sorry, guys…mas todos os agradinhos são direcionados a mulheres ou crianças. E, se algum marido colocar o nome no sorteio, pode acontecer de a mulher dele estar concorrendo duas vezes e diminuindo a chance de quem não foi acompanhada, por exemplo.

Vai estar meio bagunçado? Vai. Problemas vão surgir? Com certeza. Mas vai ter muita gente feliz se conhecendo e muita criança bonita brincando. Isso já faz valer a pena!

Anote aí:

Pupanique BH: dia 2 de agosto, no Parque Marcos Mazzoni, às 15hs. Confirme sua presença via Facebook clicando AQUI.

Pupanique SP: dia 9 de agosto, no Parque do Ibirapuera, às 15hs. Confirme a sua presença via Facebook AQUI.

Maiores detalhes, como onde vamos nos encontrar nos parques, estão nos eventos no Facebook. Vejo vocês lá! :D

 

 

 

 

 

 

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As aventuras de uma família nômade

“Resiliência é aceitar a sua nova realidade, mesmo que ela seja pior do que a que você tinha antes. Você pode brigar com ela, você pode sair gritando coisas a respeito do que você perdeu, ou você pode aceitá-la e tentar fazer disso algo bom”. 

~Elizabeth Edwards

E lá vamos nós de novo. Após 9 meses morando em Londres, estamos, novamente, fazendo as malas.

Por questões profissionais do meu marido, daqui a pouco mais de um mês, estaremos nos mudando para Estocolmo, no coração da Escandinávia. Terra dos Vikings, do ABBA (não a terapia, o grupo musical), do Roxette, da Volvo, da Ericsson.

foto: http://bit.ly/1jJ6mLx

foto: http://bit.ly/1jJ6mLx

Hoje, quando paro para pensar, parece que o médico que diagnosticou o Theo em 2010 estava profetizando a nosso respeito. Ele disse que os melhores pais para uma criança autista seriam um casal de hippies…sem rotina, sem lugar definido, para forçá-lo a sair de sua zona de conforto e aprender. Não fazemos bem o perfil de hippies…mas a parte do “sem lugar definido” já está fazendo jus. Se tirar o Theo da zona de conforto vai ajudá-lo a se desenvolver, estamos no caminho certo!

Daí, muita gente já está pensando “mas vocês amam Londres! Theo está indo tão bem!”. Sim. Mas vocês leram a frase lá em cima sobre resiliência? É isso que estou tentando fazer: focar menos no que estou, teoricamente, perdendo, e focar mais no que estou ganhando.

A Suécia é um país lindo e moderno, conhecido por ter uma das melhores qualidades de vida do mundo.  Pelo que já me informei, a assistência que podemos ter para o Theo ultrapassa até mesmo o que temos aqui no Reino Unido.

Alguns fatos interessantes sobre a Suécia:

  • 99% do lixo é reciclado. Isso mesmo que você leu. (!!!)
  • Durante alguns dias do verão, as regiões mais ao norte não têm por do sol!
  • É um dos países com maior equalidade de gêneros. Isso quer dizer que as políticas garantem que homens e mulheres tenham os mesmos direitos, oportunidades e obrigações em todas as áreas da vida;
  • A licença maternidade, na Suécia, é de 480 dias. E esse tempo pode ser dividido entre o pai e a mãe. (!!!)
  • A expectativa de vida para mulheres é de 83,5 anos e, para os homens, de 79,5.
  • A taxa de homicídios com arma de fogo por 100 mil habitantes é de 0,41 (no Brasil, é de 18,1…).
  • A Suécia foi o primeiro país do mundo a proibir castigos físicos para crianças…em 1979.
  • O verão é uma coisa absurdamente celebrada por lá. Muita gente, inclusive, fecha os comércios e vai viajar. Dizem que o país para em julho. E tem uma celebração super tradicional no dia 21 de junho, dia do Solstício de Verão. Aqui tem um vídeo que mostra um pouco o que é:

Acho que tá bom, né?!

Então, o que tem de ruim nisso tudo? É um país mais frio (e mais escuro) durante o inverno, Theo vai mudar de escola (e está super adaptado nesta) e teremos que aprender uma nova língua: o sueco. Sueco é algo assim…imagine que alguém pegou a língua alemã e piorou umas 10 vezes. É isso!

Jag skriver en mening på svenska för att visa hur.

Tradução: estou escrevendo uma frase em sueco pra vocês verem como é. OREMOS!

Resolvi compilar, aqui, as perguntas mais frequentes que as pessoas nos fazem quando contamos da mudança:

1) E O THEO?? 

Achamos que o Theo já consegue ser independente e se virar sozinho, então, vamos largar ele aqui em Londres. ÓBVIO QUE NÃO, né?! Theo vai junto!

2) E A LOLA??

Vocês já viram Lilo & Stitch? Tem uma frase muito legal lá: “Ohana significa FAMÍLIA. FAMÍLIA significa que ninguém é deixado pra trás”. Lola é OHANA. Ok??

Imagem: http://bit.ly/1ljtUeC

Imagem: http://bit.ly/1ljtUeC

3) Como o Theo vai se virar com o novo idioma?

Theo tem se virado bem com o inglês. Ele é inteligente e também vai se virar bem com o sueco. Leandro visitou uma escola lá e disse que eles usam muitos recursos visuais, como aqui (muito PECs). Isso dá pra entender em qualquer língua.

4) E a escola do Theo?

Já temos uma escola candidata e com vaga. Falta achar uma casa lá por perto. E é nisso que estamos focando agora.

5) Como o Theo vai reagir a mais uma mudança?

Vai haver turbulências, com certeza. Ele vai sentir a mudança. Mas Theo estará bem se nós estivermos bem. Estamos focando nisso e acreditando.

Brincadeiras a parte, o blog continua!!! Aqui ou em qualquer parte do mundo, desde que tenha internet, estaremos conectados!

Obrigada, mais uma vez, pela companhia constante de vocês!

 

p.s: quem se interessar pode aprender mais sobre a Suécia clicando AQUI.

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18 de Junho: dia do orgulho autista

Hoje, 18 de junho, é Dia do Orgulho Autista. Mas o que isso significa?

Os movimentos denominados de “orgulho” sempre partiram de minorias, como os LGBTs, por exemplo. Todos vieram da mobilização de grupos de pessoas que são, por um motivo ou pelo outro, “diferentes” do que é considerado “normal” e típico na sociedade em que vivemos.

A palavra “orgulho” também é usada para se opor à “vergonha” que os diferentes, em geral, sentem por serem assim. Portanto, quando falamos de “orgulho autista”, estamos dizendo que o autista tem que ter orgulho de ser como é, e que a sociedade não deve tentar enquadrá-lo no que considera como normal, mas sim aceitá-lo por completo com todas as suas particularidades.

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Queremos mostrar para a sociedade que os autistas também têm seu lugar ao sol, também podem produzir, ter amigos, ir ao cinema, conviver em sociedade, bem o contrário do que acontecia antigamente, quando muitos viviam escondidos por suas famílias em casa.

Quanto a nós, pais de autistas, se queremos que nossos filhos tenham orgulho de serem quem são, precisamos ajudá-los a construir uma autoestima forte. E isso começa com aceitá-los completamente e sem reservas.

Não estou dizendo pra deixar as terapias e tratamentos de lado! Devemos ajudar nossos filhos a superarem suas dificuldades para que possam alcançar todo o seu potencial. Mas devemos amá-los como são, e não como gostaríamos que fossem. Devemos mostrar a eles que não há nada de errado em ser diferente, e que é a diferença que dá graça ao mundo.

Tenho orgulho do meu filho com todas as suas qualidades, defeitos e dificuldades. Sei que, muitas vezes, não é fácil ser ele. Ele é um baita de um guerreiro!

E digo isso a ele todos os dias: que eu o amo, eu o aceito, tenho orgulho de ser mãe dele. Espero estar, de alguma forma, contribuindo para que o Theo tenha orgulho de ser quem é no futuro!

Quanto à sociedade, o que espero é aceite e acolha melhor as diferenças. Já falei isso antes e repito: ninguém diz a um cego que ele deve fingir ser “menos cego” para ser mais aceito pela turma na escola. Então, por que eu insistiria para o meu filho parecer “menos autista”? Algumas crianças riem quando estão felizes. Outras batem palmas. Outras dão pulinhos e fazem barulhinhos. :)

E viva a diversidade! Viva o diferente!

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