Desculpe, ele é autista

Para a moça da piscina do playground,

Desde que o Theo foi diagnosticado com autismo, aos 2 anos de idade, já houve vários olhares tortos. Já houve cochichos. Já houve alguma incompreensão. Mas nada supera a sua falta de humanidade.

Estou falando de você: a moça que estava na piscina infantil do parquinho com seus dois filhos pequenos. Um aparentava ter, no máximo, uns 10 meses. O outro já devia ter quase 2 anos.

Você, que gritou para o meu filho algo como “você não pode correr assim”, quando ele passou feliz e sorridente brincando de chutar a água ao seu lado. Foi pra você que eu gritei “ELE É AUTISTA”. E você retrucou “ele é autista?”.

Theo se divertindo na piscina sem ter a menor noção do turbilhão que acontecia ao seu redor

Theo se divertindo na piscina sem ter a menor noção do turbilhão que acontecia ao seu redor

Nesses quatro anos de diagnóstico, as histórias sempre paravam por aí. Theo fazia algo incomum. Alguém fazia cara de poucos amigos. E eu entrava botando panos quentes. “Desculpe, ele é autista”. Ou, recentemente, desde que me mudei pra Londres, “I’m sorry, he is autistic”. E as pessoas entendem. Ou, ao menos, fingem entender. E se desarmam. Mas isso não aconteceu com você.

Mesmo após ter ouvido que ele era autista, você continuou gritando com ele. “Não faça assim! Ei, você não pode correr assim!”. E, em um determinado momento, você gritou comigo! Foi algo como “você precisa falar com ele pra não correr assim!”. E  eu gritei de volta pra você. Pela primeira vez na vida, eu gritei com uma pessoa por causa do meu filho. Aquilo me soava tão inacreditável que eu devolvi um “eu estou falando com ele pra não correr, mas eu já te disse que ele é autista, você deveria ser mais compreensiva!”. A que ponto chegamos? Eu tive que dizer a uma pessoa adulta que ela deveria ser mais compreensiva com uma criança autista que brincava feliz na piscina?

Sim, meu filho empurrou seu bebê uma vez. Ele faz isso quando está tentando interagir. Ninguém se feriu. Aliás, ele fez isso com várias outras crianças e elas não se importaram. Todas levaram na esportiva. Nem seu bebê pareceu ligar muito. A única pessoa visivelmente incomodada naquela piscina era você.

Sim, meu filho chutou água no rostinho do seu bebê. Ele não foi o único. Várias crianças da mesma faixa etária dele brincavam na piscina. Todas faziam bagunça. Você era a única pessoa adulta com um bebê de 10 meses em uma piscina cheia de crianças maiores e agitadas, jogando água para todos os lados. Mas você só implicou com o meu filho!

E o cúmulo da situação foi quando vi meu filho chegar perto do seu bebê. Devagar…interessado em tocá-lo, em tentar algum tipo de interação. E você, do alto de sua ignorância, afastou o Theo com a mão e disse “não fique tão perto”. Nesse momento, mais uma vez, eu não me contive e gritei “NÃO É CONTAGIOSO!”.

As pessoas ao redor notaram e comentaram. A solidariedade que você não demonstrou na piscina jorrou ao meu redor do lado de fora.

Já me senti desconfortável no avião quando o Theo chutava a cadeira da frente e eu tinha que me explicar para um passageiro visivelmente irritado. Já me senti envergonhada por ele gritar em locais silenciosos e assustar algum desprevenido. Mas, hoje, eu me senti em pedaços. Porque senti meu filho ser humilhado por uma pessoa dura, sem compaixão, sem humanidade e sem amor ao próximo. Essa pessoa é você!

Foi horrível ter que fingir, para a amiga que estava comigo, que esse tipo de situação é corriqueira e não me afeta. Foi horrível segurar as lágrimas. Mas eu não iria fazer o que você queria: eu não iria tirar meu filho de uma piscina que ele tem todo o direito de frequentar e onde estava se divertindo com as outras crianças. Eu não iria deixar você mais confortável. Meu filho tem tanto direito ao espaço público como qualquer criança, e não é uma pessoa como você que vai tirar isso dele.

Para terminar, agora, que já se passaram algumas horas desde o ocorrido, queria te agradecer. Isso mesmo. Queria agradecer pelo aprendizado de hoje. Eu nunca, NUNCA MAIS vou dizer “desculpe, ele é autista”. Ou, na versão daqui, “I’m sorry, he is autistic” (sinto muito, ele é autista). Eu não tenho que pedir desculpas. Eu não tenho que sentir muito. Meu filho é autista. Ele é, também, a pessoa mais amorosa e engraçada que eu conheço. Ele encanta as pessoas ao redor e as cativa de uma forma que você jamais vai entender.

Eu sinto muito pelos SEUS filhos. Pelo tipo de criação que estão tendo. Pelo medo da diferença que está sendo colocado naquelas pequenas cabecinhas aos poucos. Pela falta de amor ao próximo que lhes está sendo ensinada no dia a dia.

Sinto muito por você. Pelo seu coração endurecido. Pela sua visão limitada de mundo.

Sinto muito pela forma como a vida ainda vai te ensinar. Porque ela vai, mais cedo ou mais tarde.

E, por fim, pensando em todas as pessoas que me apoiaram naquele playground, te agradeço por me mostrar que os bons ainda são maioria. Que você foi só uma nuvem negra que apareceu no nosso dia ensolarado, mas foi logo empurrada pra longe pelo vento. E o dia voltou a ficar lindo, iluminado pelo sorriso de uma criança completamente inocente, que não fazia ideia do que estava acontecendo ao seu redor.

 

Andréa.

 

p.s: um beijo especial para a minha amiga Andréa Papini que, de tão solidária a mim nesse momento, estava quase indo dar uma voadora na pessoa!

 

 

 

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Abrindo os olhos

“I want so much to open your eyes
‘Cause I need you to look into mine

Tell me that you’ll open your eyes

Take my hand, knot your fingers through mine
And we’ll walk from this dark room for the last time”

~ Snow Patrol

Theo 2 anos

Lembro-me perfeitamente da primeira vez em saímos com o Theo após o diagnóstico de autismo. Ele tinha quase dois aninhos…era mais um bebê que uma criança. Barrigudinho, rechonchudo, com aquelas bochechas que dá vontade de morder.

Fomos à Festa Junina da escolinha em uma fazendinha onde havia galinhas, coelhos, porcos, cabras, pôneis, patos e vacas. Todas as crianças enlouqueciam com os bichinhos, alimentavam as galinhas, pegavam os coelhinhos felpudos no colo…e o Theo só queria saber de correr de um lado para o outro no gramado.

Tentamos de tudo para que ele percebesse a presença daqueles animais. Mas ele, simplesmente, nem olhava. Não compartilhava. Se apontávamos para um coelho, ele virava o rosto para o lado oposto.

Exaustos física e emocionalmente, saímos de lá mais cedo e fomos pra casa. Lembro-me perfeitamente da crise de choro que tive no caminho. A ferida estava ali, aberta há poucos dias, latejando, sangrando.

Meu garotinho, quando teve o diagnóstico, enquadrava-se bem no chavão “vive em seu próprio mundo”. O bebê sorridente tinha virado uma criança séria, que passava horas de rosto no chão observando as rodas do carrinho. Parecia não perceber a vida acontecendo à sua volta. Estava totalmente fechado em seu mundo de rodinhas e dvds. Tirá-lo dali – ou, ao menos, fazê-lo perceber que havia mais coisas a descobrir, saborear e explorar – parecia impossível.

E, aos poucos, fui conhecendo outras mães. Mesmas dores, mesmos sentimentos, filhos diferentes, alguns já mais velhos. E comecei a ouvir algumas frases com uma certa frequência. “Eles melhoram! Você vai se espantar de como eles vão melhorando! Se você visse o meu filho na época do diagnóstico não acreditaria!”. Fui guardando tudo isso no coração.

Quatro anos se passaram. Moramos em Londres, uma cidade com 45% de área verde. Um dos passeios favoritos do Theo é quando eu o pego na escola e, ao invés de fazer o caminho mais curto, faço o mais longo passando por dentro do Richmond Park, que fica perto de casa. Desde que nos mudamos pra cá, comecei a fazer isso e ia explicando pra ele: “nós vamos passar dentro do parque para ver os veadinhos”. No início, ele não dava muita bola.

Ontem, ao fazer o mesmo trajeto, vi nitidamente a mudança que aconteceu de uns tempos pra cá. Parei ao lado de uma manada de veados, abri o vidro, apontei e disse: “olha, Theo, quanto veadinho! Eles estão perto do carro, olha!”. E o garotinho no banco de trás virou a cabeça, olhou, sorriu muito e quase se jogou pra fora do carro!

Os veados do Richmond Park em foto tirada ontem, da janela do carro

Os veados do Richmond Park em foto tirada ontem, da janela do carro

E, mais para a frente, algo difícil de visualizar pela posição em que o Theo se encontrava no carro: um coelho. Resolvi arriscar. “Olha, Theo, um coelho!”. E comecei a cantar a música do coelhinho. Theo se levantou do cadeirão, esticando o cinto de segurança, olhou pra fora e riu, riu muito, vendo o assustado coelhinho.

coelho parque

O coelhinho que atraiu a atenção do Theo

Mais à frente, outro bando de veados. Bati no vidro ao lado direito e Theo virou imediatamente a cabeça para olhar. Fomos pra casa. Uma mãe feliz sorria no banco da frente enquanto dirigia.

Uma das coisas que eu mais aprendi a admirar morando em um país que possui, de fato, as quatro estações, é a sincronia perfeita da natureza. Quando nos mudamos para cá, era outono. O chão estava coberto de folhas marrons e douradas. As árvores balançavam-se com o vento esticando seus galhos nus. O inverno veio, sem neve, apenas com uma fina camada de gelo que cobria os gramados verdes pela manhã. Aos poucos, o gelo foi sumindo e os gramados verdes foram adquirindo uma cor mais intensa. Até que a primavera chegou. E, subitamente, como em uma sinfonia, os patos deram filhotes, os coelhos também, e pequenas margaridas brancas brotaram em meio à grama verdinha.

A primeira vez em que vi a grama cheia de pontinhos brancos, fiquei realmente espantada. Onde estavam essas margaridas nos últimos 8 meses? Definitivamente, ninguém foi aos gramados e as plantou da noite para o dia. O mesmo aconteceu com várias outras flores, que surgiram como mágica, colorindo os gramados e alegrando a paisagem.

A verdade é que a margarida sempre esteve ali, encubadinha, escondida sob a terra, nutrindo-se das folhas que caíam no outono e da chuva que molhou a terra no inverno. Ela estava esperando somente a época certa para brotar. A época mais favorável.

Assim, também, são as habilidades dos nossos filhos. Em algumas épocas, tudo parece estar bloqueado e sufocado pelas folhas marrons. Depois, vem o gelo. Com a chuva, já conseguimos ver um gramado mais verde. E, quando menos esperamos, as margaridas e as flores de todos os tipos surgem para nos alegrar. Basta ter paciência. Basta acreditar e esperar.

Já faz alguns anos que posso dizer que o Theo voltou a sorrir.

A melhor gargalhada do mundo

A melhor gargalhada do mundo

E, hoje em dia, posso dizer que, com certeza, meu garotinho abriu os olhos para o mundo ao redor!

 

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Vem pro Pupanique!

Tudo começou com um post na fan page, totalmente despretensioso. “Se eu marcasse um encontro em BH e SP com as seguidoras do blog, quem iria?”. E foram surgindo vários “eu”, “EU”, e até uns “mas por que não no RJ”? :)

O papo continuou e a sugestão mais frequente foi fazermos um piquenique em algum parque. Assim, cada uma levava o que comer, ninguém tinha grandes gastos e dava pra levar as crianças. E foi assim que surgiu o Pupanique!

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Daí, coloquei os eventos no Facebook e muita gente confirmou presença. Resolvi que poderia ser legal arrumar uns parceiros pra sortear uns “agradinhos” pra essas pessoas tão especiais: a maioria são mães que, muitas vezes, não têm tempo nem dinheiro pra se cuidar. Todos os recursos estão focados nos filhos… e os parceiros foram aparecendo! Faço questão de agradecer a cada um deles aqui no blog assim que fecharmos tudo!

E muito mais gente foi confirmando, até que chegamos ao ponto em que estamos hoje: 61 confirmados em BH e 180 em SP (isso, sem contar com as crianças!!!)

Uau! Acho que chegou a hora de colocarmos um pouco de ordem na casa, né?! Então, vamos lá.
Pra que tudo corra bem, temos que deixar claras 3 regrinhas:

1) Cada um é responsável pelo(s) filho(s). Parece besteira falar isso, mas NUNCA tire o olho do seu pequeno. Ainda mais em um local como o Ibirapuera, onde há lagos pra todo lugar;

2) Cada um é responsável por levar o lanche que vai consumir junto com o(s) filho(s);

3) Esse é muito importante: cada um é responsável por recolher seu próprio lixo! (Lembrem-se do exemplo dos japoneses na Copa) :)

Tendo isso em mente, o resto já vai funcionar bem melhor!

Outra coisa importante é sobre os sorteios. Quando eu digo “agradinhos”, são “agradinhos” mesmo. Ninguém vai sair de lá de carro zero quilômetro…não sei se alguém esperava isso, mas achei melhor alinhar as expectativas. :)

Como tivemos um aumento enorme no número de participantes e para evitar nomes duplicados no sorteiro, voluntários da equipe de apoio (SIM, vamos ter equipe de apoio) vão anotar os nomes e emails de todo mundo* que chegar. No domingo, após checar nomes duplicados, vou realizar o sorteio pelo aplicativo Randomly Random Student Selector. Os sortudos vão saber pela fanpage e receberão, por email, instruções de como retirar seu “agradinho”.

*É importante ressaltar que só as mulheres poderão participar do sorteio. Sorry, guys…mas todos os agradinhos são direcionados a mulheres ou crianças. E, se algum marido colocar o nome no sorteio, pode acontecer de a mulher dele estar concorrendo duas vezes e diminuindo a chance de quem não foi acompanhada, por exemplo.

Vai estar meio bagunçado? Vai. Problemas vão surgir? Com certeza. Mas vai ter muita gente feliz se conhecendo e muita criança bonita brincando. Isso já faz valer a pena!

Anote aí:

Pupanique BH: dia 2 de agosto, no Parque Marcos Mazzoni, às 15hs. Confirme sua presença via Facebook clicando AQUI.

Pupanique SP: dia 9 de agosto, no Parque do Ibirapuera, às 15hs. Confirme a sua presença via Facebook AQUI.

Maiores detalhes, como onde vamos nos encontrar nos parques, estão nos eventos no Facebook. Vejo vocês lá! :D

 

 

 

 

 

 

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As aventuras de uma família nômade

“Resiliência é aceitar a sua nova realidade, mesmo que ela seja pior do que a que você tinha antes. Você pode brigar com ela, você pode sair gritando coisas a respeito do que você perdeu, ou você pode aceitá-la e tentar fazer disso algo bom”. 

~Elizabeth Edwards

E lá vamos nós de novo. Após 9 meses morando em Londres, estamos, novamente, fazendo as malas.

Por questões profissionais do meu marido, daqui a pouco mais de um mês, estaremos nos mudando para Estocolmo, no coração da Escandinávia. Terra dos Vikings, do ABBA (não a terapia, o grupo musical), do Roxette, da Volvo, da Ericsson.

foto: http://bit.ly/1jJ6mLx

foto: http://bit.ly/1jJ6mLx

Hoje, quando paro para pensar, parece que o médico que diagnosticou o Theo em 2010 estava profetizando a nosso respeito. Ele disse que os melhores pais para uma criança autista seriam um casal de hippies…sem rotina, sem lugar definido, para forçá-lo a sair de sua zona de conforto e aprender. Não fazemos bem o perfil de hippies…mas a parte do “sem lugar definido” já está fazendo jus. Se tirar o Theo da zona de conforto vai ajudá-lo a se desenvolver, estamos no caminho certo!

Daí, muita gente já está pensando “mas vocês amam Londres! Theo está indo tão bem!”. Sim. Mas vocês leram a frase lá em cima sobre resiliência? É isso que estou tentando fazer: focar menos no que estou, teoricamente, perdendo, e focar mais no que estou ganhando.

A Suécia é um país lindo e moderno, conhecido por ter uma das melhores qualidades de vida do mundo.  Pelo que já me informei, a assistência que podemos ter para o Theo ultrapassa até mesmo o que temos aqui no Reino Unido.

Alguns fatos interessantes sobre a Suécia:

  • 99% do lixo é reciclado. Isso mesmo que você leu. (!!!)
  • Durante alguns dias do verão, as regiões mais ao norte não têm por do sol!
  • É um dos países com maior equalidade de gêneros. Isso quer dizer que as políticas garantem que homens e mulheres tenham os mesmos direitos, oportunidades e obrigações em todas as áreas da vida;
  • A licença maternidade, na Suécia, é de 480 dias. E esse tempo pode ser dividido entre o pai e a mãe. (!!!)
  • A expectativa de vida para mulheres é de 83,5 anos e, para os homens, de 79,5.
  • A taxa de homicídios com arma de fogo por 100 mil habitantes é de 0,41 (no Brasil, é de 18,1…).
  • A Suécia foi o primeiro país do mundo a proibir castigos físicos para crianças…em 1979.
  • O verão é uma coisa absurdamente celebrada por lá. Muita gente, inclusive, fecha os comércios e vai viajar. Dizem que o país para em julho. E tem uma celebração super tradicional no dia 21 de junho, dia do Solstício de Verão. Aqui tem um vídeo que mostra um pouco o que é:

Acho que tá bom, né?!

Então, o que tem de ruim nisso tudo? É um país mais frio (e mais escuro) durante o inverno, Theo vai mudar de escola (e está super adaptado nesta) e teremos que aprender uma nova língua: o sueco. Sueco é algo assim…imagine que alguém pegou a língua alemã e piorou umas 10 vezes. É isso!

Jag skriver en mening på svenska för att visa hur.

Tradução: estou escrevendo uma frase em sueco pra vocês verem como é. OREMOS!

Resolvi compilar, aqui, as perguntas mais frequentes que as pessoas nos fazem quando contamos da mudança:

1) E O THEO?? 

Achamos que o Theo já consegue ser independente e se virar sozinho, então, vamos largar ele aqui em Londres. ÓBVIO QUE NÃO, né?! Theo vai junto!

2) E A LOLA??

Vocês já viram Lilo & Stitch? Tem uma frase muito legal lá: “Ohana significa FAMÍLIA. FAMÍLIA significa que ninguém é deixado pra trás”. Lola é OHANA. Ok??

Imagem: http://bit.ly/1ljtUeC

Imagem: http://bit.ly/1ljtUeC

3) Como o Theo vai se virar com o novo idioma?

Theo tem se virado bem com o inglês. Ele é inteligente e também vai se virar bem com o sueco. Leandro visitou uma escola lá e disse que eles usam muitos recursos visuais, como aqui (muito PECs). Isso dá pra entender em qualquer língua.

4) E a escola do Theo?

Já temos uma escola candidata e com vaga. Falta achar uma casa lá por perto. E é nisso que estamos focando agora.

5) Como o Theo vai reagir a mais uma mudança?

Vai haver turbulências, com certeza. Ele vai sentir a mudança. Mas Theo estará bem se nós estivermos bem. Estamos focando nisso e acreditando.

Brincadeiras a parte, o blog continua!!! Aqui ou em qualquer parte do mundo, desde que tenha internet, estaremos conectados!

Obrigada, mais uma vez, pela companhia constante de vocês!

 

p.s: quem se interessar pode aprender mais sobre a Suécia clicando AQUI.

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18 de Junho: dia do orgulho autista

Hoje, 18 de junho, é Dia do Orgulho Autista. Mas o que isso significa?

Os movimentos denominados de “orgulho” sempre partiram de minorias, como os LGBTs, por exemplo. Todos vieram da mobilização de grupos de pessoas que são, por um motivo ou pelo outro, “diferentes” do que é considerado “normal” e típico na sociedade em que vivemos.

A palavra “orgulho” também é usada para se opor à “vergonha” que os diferentes, em geral, sentem por serem assim. Portanto, quando falamos de “orgulho autista”, estamos dizendo que o autista tem que ter orgulho de ser como é, e que a sociedade não deve tentar enquadrá-lo no que considera como normal, mas sim aceitá-lo por completo com todas as suas particularidades.

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Queremos mostrar para a sociedade que os autistas também têm seu lugar ao sol, também podem produzir, ter amigos, ir ao cinema, conviver em sociedade, bem o contrário do que acontecia antigamente, quando muitos viviam escondidos por suas famílias em casa.

Quanto a nós, pais de autistas, se queremos que nossos filhos tenham orgulho de serem quem são, precisamos ajudá-los a construir uma autoestima forte. E isso começa com aceitá-los completamente e sem reservas.

Não estou dizendo pra deixar as terapias e tratamentos de lado! Devemos ajudar nossos filhos a superarem suas dificuldades para que possam alcançar todo o seu potencial. Mas devemos amá-los como são, e não como gostaríamos que fossem. Devemos mostrar a eles que não há nada de errado em ser diferente, e que é a diferença que dá graça ao mundo.

Tenho orgulho do meu filho com todas as suas qualidades, defeitos e dificuldades. Sei que, muitas vezes, não é fácil ser ele. Ele é um baita de um guerreiro!

E digo isso a ele todos os dias: que eu o amo, eu o aceito, tenho orgulho de ser mãe dele. Espero estar, de alguma forma, contribuindo para que o Theo tenha orgulho de ser quem é no futuro!

Quanto à sociedade, o que espero é aceite e acolha melhor as diferenças. Já falei isso antes e repito: ninguém diz a um cego que ele deve fingir ser “menos cego” para ser mais aceito pela turma na escola. Então, por que eu insistiria para o meu filho parecer “menos autista”? Algumas crianças riem quando estão felizes. Outras batem palmas. Outras dão pulinhos e fazem barulhinhos. :)

E viva a diversidade! Viva o diferente!

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Minhas coisinhas favoritas

Um dos filmes preferidos da minha infância é “A Noviça Rebelde”. Acho que sei as músicas de cor até hoje!

Uma das minhas partes favoritas é quando as crianças fogem para o quarto da Maria à noite. Chove muito e elas estão com medo dos trovões. Nessa hora, ela os ensina a pensar em todas as pequenas coisinhas que gostam e a tirar o foco do medo. Em questão de minutos, estão todos sorrindo e dançando com ela.

Imagem: http://bit.ly/1i0Dtzf

Imagem: http://bit.ly/1i0Dtzf

 

Pra quem quer relembrar, aí vai o vídeo:

E o final é o melhor:

“When the dog bites, when the bee stings, when I’m feeling sad

I simply remember my favourite things, and then I don’t feel so bad!”

(Quando o cachorro morde, quando a abelha pica, quando eu estou me sentindo triste, eu simplesmente me lembro das minhas coisas favoritas, e então eu não me sinto tão mal”.

Ah, que exercício interessante, não é?! Nós, mães de crianças com necessidades especiais, sabemos bem como é quando a coisa aperta. Tem dias em que tudo dá errado. Tem dias em que você conta as horas para chegar a hora de dormir e tudo acabar. Tem dias em que você se preocupa com o presente e, principalmente, com o futuro. Tem dias em que você questiona suas escolhas, seus caminhos, e até seu amor pelo seu filho.

Pensando nisso, fiz a listinha das minhas coisas favoritas. Só tem uma diferença da lista da Maria: todas as minhas coisinhas têm a ver com o Theo! <3

Theo banguelo

Algumas, eu lembro facilmente na hora do aperto. Outras, é bom deixar registrado aqui pra voltar e ler todas as vezes que eu precisar. Vamos lá?

As coisinhas que eu amo

  • Adoro observar o Theo dormindo com seu rostinho angelical, tão em paz
  • Amo dar aquela última cheiradinha no cabelinho dele antes de sair do quarto quando ele dorme
  • Amo quando ele acorda mais cedo, pula para a nossa cama, me abraça e me enche de beijos com o maior sorriso do mundo
  • Amo quando ele sai da piscininha correndo, com frio, pra que eu o envolva na toalha, e eu aproveito pra ficar abraçadinha com aquele pacotinho falando “fica aqui que a mamãe te esquenta”
  • Amo quando ele larga o Ipad ou qualquer outra coisa que esteja fazendo simplesmente para correr até mim, me dar vários beijos na testa, e voltar
  • Adoro olhar a expressão no rosto dele quando está passando a abertura de algum desenho que ele goste na TV
  • Amo o sorriso que ele dá quando me vê na porta da sala de aula para buscá-lo
  • Amo quando estamos brincando na piscina e ele se aninha no meu colo, escondendo o rosto no meu pescoço como quando era bebê
  • Amo ver como ele ri das minhas brincadeiras mais ridículas
  • Amo quando ele está comendo algo muito gostoso e faz um “huuuuummmmm” bem cantado
  • Amo quando estou dando algo pra ele comer e ele vai chegando, subindo e, quando vejo, está sentadinho no meu colo
  • Amo quando ele dá risada das maluquices da Lola

Ufa! Se eu lembrar mais coisas, venho aqui e continuo a preencher.

Daí, é só voltar aqui todas as vezes em que “o cachorro morder” (não vai ser a Lola, definitivamente) ou “a abelha picar”.

Que tal fazer o mesmo aí? :)

 

P.S: a título de curiosidade para quem se interessar, os verdadeiros Von Trapp foram para os Estados Unidos em 1940 como uma família de cantores. Acabaram ficando por lá e abriram um hotel lindo em Vermont, que recebe hóspedes do mundo todo. Aqui vai o link do “Von Trapp Family Lodge”: http://www.trappfamily.com/

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Por que meu filho não leva mais palmada

Hoje, é aniversário do Theo. Ele está fazendo 6 aninhos e tudo o que eu queria é escrever um post lindo, meloso, daqueles que fazem chorar, descrevendo todo o meu amor por ele. Mas faz uma semana que um assunto não me deixa em paz…sabe quando aquela música gruda na cabeça? Pois é. Preciso escrever sobre isso. Não dá mais pra adiar.

Feliz aniversário, meu amor!

Feliz aniversário, meu amor!

Antes de você ler este post, um lembrete muito importante: ele diz respeito aos MEUS aprendizados na minha vida com o MEU filho. Em momento algum eu vou querer ditar regras para o que você considera correto ou para o que você acha que serve ou não na sua casa.

Lembro-me, como se fosse ontem, da primeira vez em que dei uma palmada no Theo. Estávamos indo para a casa da minha sogra em uma sexta-feira à tarde. O trânsito de São Paulo, pra variar, não cooperava, e seguíamos naquele anda e para na Radial Leste. Ouvi um barulho estranho vindo do banco de trás e me virei. Foi quando percebi que o Theo tinha descoberto uma nova diversão: enfiar a mão inteira na boca até fazer vômito. Fazia isso e morria de rir. (Se você chegou a este blog agora, saiba que meu filho é autista). Pedi a ele pra parar, tentei distraí-lo, fiz de tudo o que era possível para quem dirigia e negociava com o filho ao mesmo tempo. Não funcionou. A brincadeira continuou até o ponto em que ele, de fato, vomitou um pouco no cadeirão.

O pior de tudo é que ele não parou com a concretização do processo: continuou enfiando a mão na garganta. No meu desespero, presa no trânsito, sem poder parar o carro, com medo que ele se sufocasse, fiz a única coisa que me ocorreu: virei o braço livre pra trás e acertei em cheio as perninhas dele. E a risada descontrolada parou. Dois olhos arregalados me olharam sem piscar como se falassem “foi impressão minha ou minha mãe acabou de me bater?”. A brincadeira parou.

E a vida continuou. Algumas outras palmadas vieram depois daquela. Felizmente, não foram frequentes e eu lembro perfeitamente o motivo de algumas. Uma delas veio após uma noite cansativa passada em claro. Theo acordou às 3 da manhã e se recusou a dormir novamente. Meu marido viajava e eu fiquei ali, como um zumbi, acompanhando o garotinho que pulava na cama enquanto a noite ainda era negra do lado de fora. Às 7 da manhã, percebi que ele não dormiria mais e resolvi colocá-lo no chuveiro e prepará-lo para ir à escola. Ao sair do banho, Theo recusou-se a vestir o uniforme. E, no meio dos empurrões, dos gritos e das pernas descontroladas, perdi o resto da paciência e dei umas 3 palmadas na bunda do menininho inquieto. Ele chorou sentido, vestiu a roupa e foi para a escola.

Alguns outros episódios aconteceram. Todos, porém, tiveram algo em comum: o meu desespero ao apelar para o recurso da palmada quando simplesmente não sabia mais o que tentar. O sentimento horrível que se seguia a isso. E os resultados, na maioria das vezes, somente momentâneos. Os comportamentos indesejados voltaram a acontecer em pouquíssimo tempo. E o mais doloroso de tudo isso foi sempre o olhar do Theo, tão expressivo, externando um misto de raiva, indignação e mágoa. Uma mistura bem indigesta para uma mãe.

E o tempo foi passando. E, em fevereiro deste ano, a Lola veio fazer parte da nossa família.

Theo e Lola

Theo e Lola

Há algumas semanas, comecei a notar um padrão preocupante de comportamento: quando o Theo se sente frustrado ou irritado, ele bate na Lola. Ela não entende nada e, boazinha como é, não reage. Na semana passada, em um desses acessos de raiva, segurei firme a mãozinha dele e disse “você não pode bater na Lola! Bater é feio! Não se bate nas pessoas!”. E quase engasguei nas minhas próprias palavras. A ficha caiu dura e pesada. Dormi mal, não conseguia tirar aquilo da minha cabeça.

“Você não pode bater na Lola! Bater é feio! Não se bate nas pessoas!”

Sabe quando as nutricionistas dizem que o melhor jeito de ensinar seu filho a comer bem é comendo bem? E quando os educadores dizem que as crianças aprendem muito mais pelo exemplo que você dá do que pelo que você fala? Pois é. Eu cheguei à conclusão de que não tinha moral alguma para dizer ao Theo que “não se bate nas pessoas”. E que o meu exemplo pra ele não estava sendo correto.

Crianças autistas têm um agravante com relação às crianças típicas: elas são muito literais, e regras sociais complexas são bem mais difíceis de se entender. Um exemplo disso é a mãe que diz ao filho autista que ele tem sempre que dizer a verdade. Então, no Natal em família, a criança abre o brinquedo que a avó deu de presente, enquanto todos olham apreensivos. A avó pergunta: “e aí? Você gostou?”. E ela diz “não”. A mãe morre, o pai desmaia. Mais tarde, a mãe tenta explicar que, algumas vezes, a gente não fala a verdade para não magoar as pessoas. Ou seja: não devemos falar a verdade sempre. Aquilo, certamente, vai confundir bastante a cabeça daquela criança.

Então, para simplificar a coisa aqui em casa, se a regra é “não pode bater”, NINGUÉM pode bater. Nem a mamãe, nem o papai e nem o Theo. Certo?

E, agora que entendi isso, percebi que, da mesma forma que eu dava a palmada por estar extremamente frustrada e sem saber o que fazer para resolver o problema, Theo repetia esse comportamento com a Lola. E, agora, eu digo pra ele: “eu sei que você está frustrado e chateado, mas bater na Lola não vai resolver o seu problema. A Lola não tem culpa. Vamos tentar resolver isso de uma outra forma?”. E ainda reforço: “aqui em casa, não se bate. Bater nas pessoas é errado”.

Percebi que preciso dominar os meus impulsos provenientes das emoções ruins para poder ensiná-lo a fazer o mesmo.

Meu filho faz 6 anos hoje. Tudo o que eu espero, nesse dia, é que eu possa ser o exemplo que ele precisa. Que ele aprenda a copiar o que eu tenho de bom, e não os meus defeitos.

Parabéns, Theo! Mamãe te ama um absurdo! Você é meu grande professor nessa vida!

 

 

 

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