Os problemas com o discurso da “mãe especial”

Você conhece esta cena. Já a viveu várias vezes. Já está acostumada às reações. E sente que ela vai se repetir agora, com a colega da sua amiga à qual você acabou de ser apresentada.

É que, no meio da conversa entre as três, por causa de algum contexto específico, você soltou a frase “meu filho é autista”. Ou “meu filho tem Síndrome de Down”. Ou PC. Ou qualquer tipo de deficiência. E agora é a hora de ouvir “você é uma mãe especial”. Ou “você foi escolhida por Deus”.

Você também conhece o olhar que acompanha a frase. E o tapinha nas costas que vem junto, invariavelmente.

Pois eu acho que esse discurso tem alguns problemas, e a maioria das pessoas que o utilizam, provavelmente, não tem noção disso.

De qualquer forma, acho válido levantar o ponto para que a gente preste atenção no que anda engolindo junto com essa frase, muitas vezes, sem perceber.

“Colega, você é especial. Foi escolhida por Deus. Portanto, deve se resignar ao sofrimento que a sua tarefa (ou fardo) traz no pacote.” 

E, nessa, muita mãe pode cair no conformismo. “O autismo é assim mesmo”. “Isso é coisa do autismo”. E, nessa, pode deixar de ir à luta, se informar mais, entender de fato o autismo do filho, procurar as melhores intervenções pra que ele se desenvolva. Sim, o autismo tá lá. Mas não é assim e acabou. Dá pra melhorar MUITA coisa. Mas nada vai cair no seu colo. Precisa batalhar, buscar informação, correr atrás, bater nas portas.

“Colega, você é especial. Foi escolhida por Deus. Portanto, eu não tenho nada a ver com a sua situação. Se vira aí com o Todo Poderoso.”

E, nessa, o Estado vira as costas, as escolas viram as costas, a sociedade vira as costas. Afinal, ser mãe de criança com deficiência é ter uma vida “especialmente sofrida”. Faz parte. Senta lá, Cláudia.

“Colega, você é especial. Foi escolhida por Deus. Portanto, nada de reclamar. Nada de mimimi. Depressão é frescura. Porque, se Deus te deu essa tarefa, ele sabe que você aguenta.”

E, nessa, muitas mães de crianças com deficiências estão tendo seu cansaço físico e o sofrimento psíquico ignorado, tratado como mimimi, enfiado pra debaixo do tapete. O marido pode entrar em depressão, os avós podem ter gastrite, mas a mãe não pode nem mencionar “preciso ir ao médico”. A mãe tem que ser sempre forte, nunca, jamais, pode desmoronar. Porque ELA É ESPECIAL.

“Colega, você é especial. Porque você tem um filho especial. Ele é tão especial que não temos condições de atendê-lo aqui na escola/natação/curso de idiomas.”

Vai vendo como esse discurso segrega. Quem é especial demais não tem lugar na sociedade, néam?!

“Colega, você é especial. Você sabe lidar com essa situação, com as suas expectativas frustradas. Você é mãe especial, foi escolhida, portanto, vai saber o que fazer. Eu não sei. Tchau”. 

Assinado: o pai da criança (algumas vezes, infelizmente)

“Colega, você é especial. Foi escolhida por Deus pra cuidar do fulaninho. Portanto, sua vida deve girar em torno disso.”

Nada de férias sozinha com o marido, descanso, pensar em você mesma, se cuidar, ir ao cinema, pintar o cabelo. Fulaninho precisa de estímulos o tempo todo e você foi ES-CO-LHI-DA pra aguentar essa tarefa! Todo o dinheiro extra deve ir para o Fulaninho! Esqueça o seu lado mulher! Você é uma mãe especial!

Aquele olhar...

Aquele olhar…

Em resumo: esse discurso tem um lado nefasto, massacrante, desumanizador.

Você não é mãe especial. É mulher, é mãe, ama o seu filho e quer o melhor pra ele. Ponto.

Então, colega, da próxima vez em que ouvir esse discurso e sentir que a pessoa está querendo te passar algum dos recados acima, mostre pra ela que especial é o seu PÉ que vai acertar em cheio a BUNDA de qualquer indivíduo desavisado que quiser te sujeitar ou segregar com base em uma frase bonitinha.

Não precisamos ser vistas como especiais. Muito menos nossos filhos. Precisamos ter nossos direitos – e os deles – respeitados. FIM.  

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Foto: Shutterstock      

  • Aline Marques

    Mulher, você é uma sábia! Rs
    Com esse texto simples, colocou em palavras o que há anos está engasgado na minha garganta. Além de deixá-lo divertido… Agora quero ver quem é que vai aguentar o meu PÉ! 😉

  • Duran

    Nestas horas eu uso a máxima do espanhol: “Seu deus deixou bem clara quais eram as intenções dele!”

  • Lily Fernandes

    Em 20 anos, fui expulsa/banida de muitos grupos de mães pq sempre encrenquei com esse discurso. E vi muitas mães massacradas por ele. Mães que chegavam querendo apoio, cansadas, estressadas, com medo e ouviam que não podiam se sentir assim. Que deviam se sentir especiais, escolhidas e que perder a paciência, gritar ou chorar era se revoltar com deus.

    Pessoalmente eu tbm não gosto desse discurso vindo de mães com filhos deficientes. Primeiro pq, sinceramente, me parece forçado ou introjetado. Segundo pq desumaniza outras mães. Eu me canso sim, perco a paciência sim, grito algumas vezes, tenho vontade de tirar férias/sumir outras tantas. Mas continuei/continuo. Não pq seja algum tipo de super herói, mas justamente pq me respeito e respeito meus dias de tristeza.

  • Ana Paula Gonzaga

    Andréa, esse texto bateu de frente com o que estou vivendo… Nessa correria que só nós conhecemos, acabei desenvolvendo um transtorno de ansiedade, e no momento para sair de casa, entrar no transporte público, dirigir, ou mesmo pegar uma carona está muito difícil. Até mesmo andar à pé é sacrificado, tenho a sensação que serei atropelada o tempo todo. Acho que todas nós nos sentimos assim em algum momento… Mas ai de mim mencionar isso… Não há pai, mãe, marido, chefe, que compreenda isso!!! Obrigada por me mostrar que não sou um E.T. egoísta que só pensa em mim… Afinal, com o tempo, acabei acreditando que eu estava errada e tinha culpa em me sentir assim. Grata, por tudo, mesmo sem te conhecer…

  • Amanda Paschoal

    Tem mais um: Você é especial, escolhida por Deus, então não pode cometer nenhum erro. Tudo que você faz tem que ser absolutamente per-fei-to. (serve tanto para a pressão da sociedade quanto aos que usam esse discurso como escudo para não ouvir critica nenhuma)

  • Luciana Maria Castrillon

    Quando eu ouco este discurso, gosto de dizer que Deus criou um universo de liberdades, onde a chance atua para criar coisas maravilhosas e tambem desafios que so quem enfrenta pode imaginar. Deus nao da o frio conforme o cobertor senao nao teriamos maes deprimidissimas ou criancas especiais abandonadas. O mais importante eh sinalizar para qualquer mae – ou pai – que estamos disponiveis para fazer parte da rede de suporte desta crianca especial. Quando maior a rede, menor a solidao, menor o sofrimento.

  • Claudia Colaiori

    Me lembra a cena final de um filme que assisti há muitos anos, não sei o nome em inglês. Em português, “Meu filho, meu mundo.”

  • Samuel Lopes

    Falou tudo! Nunca”engoli” esse papo de “mãe especial”, afinal, que glória tem nisso pelo Amor de Deus??? Não me julgo melhor que nenhuma pessoa por ter um filho com deficiência e muito menos desmereço aquelas mães que não o tem. Somos todas mães e ponto. Com fraquezas, imperfeições, erros e acertos como qualquer outra….às vezes num bom dia, às vezes num péssimo e por aí vai… Na minha opinião esse discurso chulo é mais uma desculpa para encarar a realidade dura demais conosco e também para ignorar o fato de que, independente de se ter ou não filho deficiente, somos mães, mas antes disso, somos indivíduos pensantes e também queremos realizar sonhos, conquistar, crescer… VIVER!

  • Myranda

    Digo mais não é só com o autista ou outro tipo de deficiência, é com o diferente…tenho um autista e uma AHSD, ouço a mesma coisa pros dois, mesmo discurso, mesmas exatas palavras…As diferenças assustam, dão trabalho, demandam energia…e quem não está comprometido ou sequer envolvido, e nem quer, vem com esse papinho. ..

  • Wanessa Rodrigues De Almeida

    Nossaaaaaa esse texto me caiu como uma luva !
    Tive dignostico do meu filho a pouco tempo e todos olham pra mim com cara de pena e com esse discurso na ponta da língua!!! Definitivamente não sou mesmo especial, não tenho nenhum beneficio por ser mãe de um autista! pelo contrário sou julgada todos os dias pela sociedade que vê o comportamento do meu filho e não enxerga nele nenhum traço de deficiência e assim julga como birra ou pirraça as situações que passo todos os dias. Antes quando m olhavam torto e sacudiam a cabeça nos momentos de “pirraça” em público me sentia na necessidade de explicar que ele é autista, mas devido a alguns comentários hoje nem me explico mais até por que não me ajudariam em nada mesmo! depois desse texto me sinto uns 10 quilos mais leve!

  • Janine Araujo

    Oi Andrea! Realizo um trabalho voluntário com um grupo de mães em uma escola estadual em Belo Horizonte, que atende especificamente a deficiência da fala e audição e gostaria de utilizar este texto como ponto de reflexão. Aguardo seu retorno. Abraço!

  • Lilian Dpsa

    Mais um texto maravilhoso do seu blog. Esse rótulo de mãe especial é terrível. De tudo isso eu tiro que temos que nos respeitar antes de tudo. Nossos limites e possibilidades. Temos que cuidar de nós mesmas. Sempre.

  • Katia Merschmann

    Bem isso: Vc é especial, vai dar conta de tudo como ninguém!!!

  • Cristina Santana

    Uma pessoa corajosa me falou algo que me abriu os olhos: “COMO VC AGUENTA” Aquela frase entrou no meu coração como uma resposta, eu não preciso “aguentar” fazer tudo sozinha eu preciso de ajuda, de parcerias, de buscar os direitos da minha filha, e isso mudou a minha perspectiva diante desse desafio.

  • Giuliana Sperandio Maier

    Nossa como me identifiquei com cada parágrafo, meu Deus como cansa ser mãe especial, que não pode cansar, reclamar e querer fugir as vezes sem ser taxada de doida.

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